Índios Yanomami, eles são um dos maiores povos indígenas do Brasil, sua população tem cerca de 20 mil pessoas espalhadas nos estados do Amazonas, Roraima e na fronteira com a Venezuela e possuem diante de si um dos maiores laboratórios farmacêuticos: a floresta amazônica.

O seu sistema de cura tem como principal pilar a atuação dos xamãs, que focam no estudo das causas das doenças, buscando portanto agir sobre os diversos agentes e vetores maléficos identificados com a origem dos danos infligidos aos pacientes.

O processo de cura com remédios da floresta é empreendida após a sessão xamânica, que visa atuar na redução dos sintomas, como febres, tosses, dores diversas e etc… O conhecimento sobre estes remédios era mantido e repassado tradicionalmente pelas mulheres idosas, que os aplicavam em complemento e em acordo com o trabalho de cura dos xamãs.

A maioria destas mulheres, conhecedoras dos remédios da floresta da aldeia Watoriki, no entanto, morreu nos anos 70 por conta das epidemias que assolaram a região dos rios Mapulau e Catrimani. Por conta disso, este saber fitoterapêutico dos Yanomami ficou guardado apenas por alguns dos homens mais velhos cujas mães foram as últimas a morrer.

Na década de 80, a invasão garimpeira causou um efeito devastador para as populações indígenas não só pela devastação da floresta e dos rios como também afetou a saúde destes povos com doenças e uso maciço de remédios industriais. Foi uma fase em que havia um desinteresse na farmácia indígena tradicional. O conhecimento fitoterápico Yanomami tinha sido desenvolvido no quadro epidemiológico do período anterior e parecia “insuficiente” diante das novas doenças surgidas depois.

Entre 1993 e 1994, a pedido do projeto de saúde da CCPY (Comissão Pró-Yanomami), o antropólogo Bruce Albert, do Institut de Recherche pour le Dèveloppement (IRD), na França, e o botânico Willian Milliken, do Royal Botanic Gardens, em Kwe, subúrbio de Londres, realizaram um extenso levantamento sobre as plantas medicinais Yanomami com o objetivo de aprimorar o atendimento de saúde à este povo por meio da valorização da medicina tradicional.

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As ervas e os diferentes modos de preparo no combate às doenças,                                Foto: Conger design/ Pixabay

Na época foram levantadas 114 espécies de plantas e o material foi organizado em um projeto de livro com o título “Hwërimamotima thëpë. Um primeiro manual de plantas medicinais Yanomami”. A sua publicação só foi feita depois que os Yanomami tivessem melhores condições de controlar a divulgação de seus conhecimentos tradicionais e que a reflexão jurídica sobre o tema se consolidasse.

Nos últimos vinte anos, além dos progressos legislativos que acompanharam a criação do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cgen) no âmbito do Ministério do Meio Ambiente (MMA), a CCPY, e posteriormente o ISA (Instituto Socioambiental) desenvolveram (desde 1998) um projeto educativo intercultural que garantiu a formação de uma geração de professores e pesquisadores yanomami e viabilizou a criação da Hutukara Associação Yanomami em 2004.

Num dos seminários promovidos pelo ISA e a Hutukara Associação Yanomami foi proposto restituir os dados etnobotânicos coletados na década de 1990 à comunidade, retomando a pesquisa sob a autoria dos próprios Yanomami, em sua própria língua e com a colaboração dos pesquisadores não indígenas e técnicos do ISA.

A publicação traz 130 espécies usadas pelos Yanomani, que mostra lugar de coleta, indicações de uso, partes usadas, modos de preparo e forma de administrar.

O saber ancestral feminino passado para as novas gerações

Foram organizadas duas oficinas de pesquisa Yanomami sobre plantas medicinais na comunidade Watoriki, a primeira em novembro de 2012 e a segunda em setembro-outubro de 2013. Da equipe de 9 pesquisadores indígenas, 6 eram mulheres, uma prova de que este resgate está voltando para o mundo feminino.

Além de lidar com a colheita e identificação das plantas medicinais, os pesquisadores tinham que entrevistar os líderes tradicionais (pata thëpë) sobreviventes, os anciãos da tribo. Isto despertou cada vez mais o interesse das novas gerações que receberam educação.

Durante estas muitas conversas e depoimentos definiram-se também pontos importantes para a continuidade da pesquisa na sua fase de publicação e divulgação, bem como para sua “exportação” em outra áreas da Terra Indígena e, de modo geral, para a salvaguarda e transmissão deste patrimônio Yanomami.

Agora, duas décadas após esta pesquisa, o quadro das doenças exógenas apresenta relativa estabilização e os remédios industriais deixaram de ser culturalmente supervalorizados.

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Com informações do ISA – Instituto Socioambiental

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