Nesta crônica, Lya Luft fala da descoberta do universo das palavras, do prazer de poder brincar com elas. Nos faz pensar sobre o poder que elas têm. Como podem unir ou desunir, como elas podem se virar contra nós.

Em tempos modernos com tantas conexões e comunicações a distância, não estamos sabendo usar as palavras da maneira que mais nos conecta:através de um simples toque e do olho no olho.

Senhores das Palavras

Palavras podem impressionar mais do que fatos.

Descobri isso quando as pessoas discutiam lançando palavras como dardos sobre a mesa na sala de jantar. Nessa época meus olhos mal alcançavam o tampo da mesa, e o mundo dos adultos me parecia fascinante.

O meu era demais limitado por horários (por que criança tinha de dormir tão cedo?), regras tediosas (por que não correr descalça na chuva, por que não botar os pés em cima do sofá, por quê, por quê…?), e a escola era um fardo: seria tão mais divertido ficar lendo debaixo das árvores no jardim de casa.

Mas em compensação na escola também se brincava com palavras: lá, como em casa, havia livros, e neles as palavras eram caramelos saborosos ou pedrinhas coloridas que a gente colecionava, olhava contra a luz, revirava no céu da boca… às vezes cuspia na cara de alguém de propósito, para machucar.

Depois houve um tempo (hoje, não mais?) em que palavras eram cortadas por reticências na tela do cinema, enquanto sobre elas se representavam cenas que hoje são o pão nosso de qualquer criança com televisão em casa, mas então causavam constrangimento.

Palavras ofendem ou assustam mais do que a realidade — sempre achei isso muito divertido. Palavras servem para mal-entendidos que magoam anos mais tarde, quando alguém nos cobra:

“Você aquela vez disse que eu…”

“De jeito nenhum, eu jamais imaginei, nem de longe, dizer uma coisa dessas…”

“Mas você disse…”

“Nunca! Eu tenho certeza absoluta!”

Mas não tinha havido testemunhas, e a memória é enganosa. Seja como for, a dor tinha marcado a fogo.

“Agora não quero falar nisso”, dizemos. Mas a gente devia falar exatamente disso que nos assusta e nos afasta do outro. O silêncio quando devíamos falar, a palavra errada quando devíamos ter ficado quietos: instauram-se o drama da convivência e a dificuldade do amor.

Sou dos que optam pela palavra sempre que é possível. Olho no olho, às vezes mão na mão ou mão no ombro: vem cá, vamos conversar? Nem sempre é possível. Mas em geral é melhor do que o silêncio crispado e as palavras varridas embaixo do tapete.

Não falo do silêncio bom em que se compartilha ternura e entendimento. Falo do silêncio ressentido em que se acumula amargura e se distanciam como estranhos os que partilham da mesma sala, mesma cama, mesma vida.

Em parte, porque nada foi dito quando tudo precisaria ser falado, até para que a gente pudesse se afastar com amizade e respeito quando ainda era tempo.

Falar é também a essência da terapia: pronunciando o nome das coisas que nos feriram, ou das que nos assustam mais, adquirimos sobre elas um mínimo controle. O fantasma passa a ter nome e rosto, e começamos a lidar com ele. Talvez não sejamos ainda seus donos, mas ele já tem menos poder.

Há muitos estudos sobre os nomes atribuídos a Deus, ao Diabo, a enfermidades consideradas incuráveis ou altamente contagiosas. Eram, são, eufemismos: para que, não sendo pronunciadas, não nos atinjam também nem nos castiguem.

A palavra faz parte da nossa humana essência: com ela nos acercamos do outro, apaziguamos, ferimos e matamos. Com a palavra seduzimos o leitor num texto, numa palavra liquidamos: negócios e amores. Uma palavra confere o nome ao filho que nasce e ao navio que transportará vidas ou armas.

“Vá”, “Venha”, “Fique”, “Eu vou”, “Eu não sei, “Eu quero mas não posso”, “Eu não sou capaz”, “Sim, eu mereço”, são a marca das nossas escolhas, derrota diante do nosso medo ou vitória sobre nosso susto.

Viemos ao mundo para dar nomes às coisas, senhores delas ou enganados através delas quando mal usadas, servos de quem as manipula contra nós.

Lya Luft, crônica ‘Senhores das Palavras”, do livro ‘Em Outras Palavras. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.

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