Em um texto sobre inspiração, o cartunista Henfil disse: ” a inspiração é um cachorro preto, um dobberman atrás de você”. Tratando-se de um jornal, o processo criativo é bem por aí. A criatividade, a inspiração têm prazos a cumprir.

Já com os autores de livros, eles podem brincar com a criatividade por mais tempo. Muitos fazem da fonte de inspiração um mistério, despertam a curiosidade, mas quando o livro chega nas mãos dos leitores, o escritor perde todo o controle sobre sua obra.

Esta é a mágica! Cada leitor descobrirá um aspecto, dará uma outra interpretação que sequer passou pela cabeça do autor .

Na crônica a seguir, Rubem Alves descreve como um livro dedicado à sua filha teve  repercussões inimagináveis. Boa leitura.

Inspiração
O livro do Eclesiastes adverte: “Um último aviso: escrever livros e mais livros não tem limite. E o muito estudo é enfado da carne…”. Não obedeci. Escrevi muitos
livros.

É o jeito que tenho de brincar. Livros são brinquedos para o pensamento. De
todos os que escrevi, acho que o que mais amo é A menina e o pássaro encantado.

Escrevi para transformar uma dor em beleza. Eu ia me ausentar do Brasil por um
período longo e a minha filha de quatro anos, a Raquel, estava inconsolável. As
crianças têm uma sensibilidade especial.

Sabem que toda ausência passageira é metáfora de uma ausência definitiva. Ela sofria e eu sofria com o sofrimento dela. Aí, de repente, veio a inspiração. Inspiração é quando a gente não sabe de onde a ideia vem.

Na ciência é o contrário: é preciso explicar o caminho que se tomou para
chegar à ideia. É esse caminho que tem o nome de método. Seguindo o mesmo
caminho, qualquer outro cientista poderá chegar à mesma ideia.

Na literatura é o  contrário: o escritor não sabe de onde as ideias vêm. Portanto não se pode ensinar o caminho.

Veja como Fernando Pessoa descreveu essa experiência: “Às vezes tenho ideias felizes, ideias subitamente felizes… Depois de escrever, leio… Por que escrevi isso? Onde fui buscar isso? De onde me veio isso? Isto é melhor do que eu…”.

A ciência é a caça de um pássaro definido de antemão que, depois de apanhado, será preso numa gaiola de palavras. Mas a inspiração não é uma caça. A inspiração chega em momentos raros de distração.

Picasso explicou o seu “método”: “Eu não procuro. Eu encontro…”.

Ou seja, a inspiração não tem método: o pássaro pousa no nosso ombro, sem que o tivéssemos procurado e apenas nos espantamos de que ele seja assim tão bonito… Foi assim que me apareceu a estória A menina e o pássaro encantado.

Nela, uma menina que não suportava a saudade, para impedir que seu pássaro voasse tratou de prendê-lo numa gaiola. Resultado: o pássaro encantado deixou de ser encantado; perdeu as cores e esqueceu o canto.

O pássaro só é encantado quando é livre. O sentido original da estória era claro: era uma estória para a minha filha e para mim cujo objetivo era transformar a dor em beleza.

Mas aí aconteceu o inesperado: depois de publicado, os leitores passaram a ver sentidos novos que eu não havia visto: o livro começou a ser usado por terapeutas para lidar com casais em que cada um tentava engaiolar o outro.

E estavam certos. Foi então que um amigo me disse: “Que linda estória você escreveu sobre Deus!”. Espantei-me.“Sobre Deus? Qual?” “A menina e o pássaro encantado”, ele respondeu.

Contestei: “Mas a estória não é sobre Deus…”. Ao que ele me disse: “Pois eu pensei que o pássaro encantado era Deus, que as religiões aprisionam em gaiolas…”.

Pode também ser… É impossível engaiolar o sentido.

Rubem Alves, no livro “Ostra feliz não faz pérola”. Editora Planeta, 2008

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