Em março de 2018, o engenheiro e professor Silvério Morón, de 64 anos, depois de muito tempo dando aulas particulares para alunos de colégios privados, decidiu compartilhar seu conhecimento com aqueles que não podiam pagar.

Ele colocou a plaquinha “Tiro dúvidas de matemática e física (grátis)” em uma mesa de alvenaria na praça Mauro Duarte, em Botafogo, bairro da zona sul do Rio de Janeiro.

Depois de 9 dias apareceu o seu primeiro aluno: um universitário de engenharia de produção. Graças à uma foto desta aula, que viralizou nas redes sociais, muitos estudantes apareceram em busca de aulas de reforço e também professores voluntários. Nascia o projeto “Adote um aluno”.

Hoje o projeto tem 34 professores voluntários em diversas disciplinas e cerca de 300 alunos que assistem as aulas em 4 praças de diferentes bairros da cidade. As aulas são de segunda à sexta com carga horária de 20 horas por semana. Esta turma com sede de conhecimento só é impedida pela chuva e feriados.

Uma escola democrática, aberta em prol de uma sociedade melhor

O professor Silvério sempre teve contato com alunos privilegiados de escolas privadas e ao comparar com a educação pública que é oferecida para a população, ele se perguntava como poderia ajudar a sua cidade.

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Professor Silvério Morón e suas alunas na Praia do Flamengo . Foto: Acervo pessoal

Por acreditar que a educação reduz as desigualdades, o desemprego e a violência, logo, o próprio ofício deu-lhe a resposta. “As minhas aulas eram só uma gotinha d’água, hoje nós somos muitas gotas de água se somar os alunos e os professores. Quem sabe não viramos uma tsunami na educação?”- conclui.

O perfil dos professores voluntários é variado, mas com um traço em comum: ajudar quem precisa. São aposentados, jovens e até profissionais que ainda estão na ativa, que usam sua hora de almoço pra prestar este serviço como é o caso do engenheiro civil Antônio Carlos Macedo, amigo de Silvério.

Apesar de não ter muito tempo livre, a paixão de voluntário falou mais alto e resolveu usar seu intervalo de almoço em alguns dias da semana, para ensinar física, matemática e química nos bancos da praça.

Um dado surpreendente é que os acompanhantes dos alunos acabam entrando nesta “ciranda”. Um exemplo disso é a Dona Maria de Jesus Rangel, de 77 anos, que está se alfabetizando.

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Dona Nilda com 95 anos prova que nunca é tarde para aprender.        Foto: Acervo pessoal

O Brasil ainda tem 11,3 milhões de pessoas maiores de 15 anos que não sabem ler ou escrever, uma taxa de analfabetismo de 6,8%, segundo o IBGE.

Pessoas como Dona Maria que não tiveram oportunidade, pois eram obrigadas a trabalhar na roça para sobreviver. Assim como os jovens das favelas e da periferia que largam os estudos para ajudarem a compor a renda familiar. Para as mulheres do interior ainda têm o agravante do machismo, pois se deparam com a pergunta: ” estudar pra quê?”

O professor Silvério é um altruísta ambicioso. Seu maior desejo é que o projeto “Adote um Aluno” esteja em cada bairro cidade do Rio de Janeiro ocupando uma praça desenvolvendo a educação com o envolvimento dos moradores dos bairros. Segundo ele, não precisa ser matérias dadas nas escola. Profissionais como eletricistas, cabeleireiros, e tantos outros podem compartilhar o que sabem.

Até a postagem da reportagem, o projeto conquistou mais um bairro da cidade Rio: a Barra da Tijuca, na zona oeste . As aulas acontecem em frente ao Colégio Municipal Dom Pedro I.

Para conhecer mais de perto este projeto, aqui estão os links das páginas do “Adote um Aluno” no facebook com o local, dias e horários das disciplinas:

Sai o divã e entra em cena o banco da praça

Seus bancos são testemunhas de todos os tipos de encontros e conversas prosaicas e de uns tempos pra cá, algumas praças estão virando uma espécie de clínicas de atendimento psicológico.

No bairro de Laranjeiras, zona sul da cidade do Rio de Janeiro, a praça São Salvador ganhou o projeto “Praça Terapia” em maio deste ano, que foi elaborado por um grupo de seis jovens psicólogos recém-formados. O projeto social funciona todas as quintas-feiras na praça, salvo feriados e dias de chuva, das 17h30m às 20h.

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Praça Salvador em Laranjeiras, zona sul do Rio. Foto: Acervo Pessoal

Camille Souza, de 23 anos,começou a dar forma no projeto fim do ano passado. No entanto, só em abril de 2019 ela e seus amigos começaram a fazer seus primeiros atendimentos.

A ideia, segundo Camille, foi inspirada em duas iniciativas paulistanas: a Psicanálise na Praça Roosevelt e a Clínica Pública de Psicanálise.
— Falei com meus colegas de curso e recebi um superapoio. Já tinha vontade de fazer algo assim desde 2018, mas só tive condições de pôr em prática agora. — conta Camille.

Bruno Augusto, um dos colegas de turma que aceitou o convite diz que se interessou na proposta por ver uma sintonia entre ela e os tempos de hoje. Ele acha que por estarmos vivendo um período conturbado no contexto político e com as novas tecnologias, as pessoas estão se ouvindo pouco, falta contato corpo a corpo. E o projeto oferece acolhimento.

Atualmente, eles fazem em média de quatro atendimentos por noite, com pacientes de perfis variados. O atendimento é feito por ordem de chegada, não precisa agendar.

“Atendemos desde pessoas de classe média, que nos viram na internet, quanto pessoas em situação de rua. Esses quase sempre chegam aqui sem saber quem somos, mas como precisam falar e serem escutados, eles se beneficiam do nosso trabalho” — diz Augusto.

A escolha do local, por sua vez, veio da proximidade natural dos jovens com a Praça São Salvador, que passaram a frequentar na faculdade. Ela é famosa pelas rodas de choro.

Além disso, a praça tem uma estrutura acolhedora, com uma muretinha e mesas com bancos própria estrutura do local um ambiente que convida à escuta e à troca.

Psicanálise gratuita é um ato político

No primeiro dia, quatro pessoas foram atendidas, já no terceiro, 29 pacientes passaram pela praça para serem atendidas pelos profissionais do projeto ‘Psicanálise na Praça”.

A ideia surgiu há um ano, após a psicanalista Cláudia Gigante Ferraz assistir a uma palestra com o professor Tales Ab’Sáber sobre um trabalho que está sendo desenvolvido há 20 anos e leva psicanálise gratuitamente à comunidade.

“Eu pensei: bom, quero levar isso para São Carlos (SP). Fui me preparando durante um ano, escrevendo o projeto para atender as especificidades da cidade e, em março desse ano, comecei a chamar os profissionais para participar”, disse.

Para Cláudia, a iniciativa tem um fundamento anticapitalista para testar a eficácia do tratamento sem a necessidade de pagamento da consulta. Por ser uma terapia cara, poucas pessoas têm acesso, ainda mais com a crise financeira que assola o país.

” Nós pensamos em formas que possam colaborar, no sentido de cuidar um pouco do sofrimento e do mal estar contemporâneo que a gente está vivendo”, explicou a psicanalista.

Os atendimentos são direcionados para qualquer pessoa que procurar pelo grupo na praça durante o período de atendimento, sem necessidade de agendamento de horário.

Quem escolhe a frequência dos atendimentos e direciona o tratamento é o próprio paciente, que escolhe se vai voltar para acompanhamento ou não. Em quatro semanas, 13 pessoas retornaram.

O perfil do público é variado, mas segue um padrão financeiro e emocional comum. Segundo Cláudia, os pacientes entendem de sofrimento emocional, mas financeiramente não teriam condições de bancar uma sessão em consultório.

Para atender a demanda, o grupo estipulou um esquema de rodízio entre os profissionais, sempre respeitando o limite mínimo de 10 psicanalistas atuando. Por isso, sempre que o paciente voltar, ele pode ser atendido por um psicanalista diferente.

“A pessoa sempre vai ter uma escuta psicanalítica, mas é sempre diferente. É uma outra relação transferencial e essa circularidade é a nossa aposta. E tem dado tão certo. A gente sente que as pessoas estão gostando”, disse.

O ‘Psicanalise na Praça’ se tornou um projeto de vida para que ela tivesse contato com os profissionais mais jovens e pudesse desenvolver o motivo que a levou a cria-lo: transformar vidas.

“Eu achei que eu tinha que fazer alguma coisa. Chegou uma hora que eu parei de dar aula, eu já tenho 54 anos e aí eu falei para mim mesma: não vai dar para você ficar tão burguesa assim. Então esse projeto também foi para que eu pudesse fazer alguma coisa a mais”, contou.

O projeto acontece todos os sábados das 11h às 14h, na Praça Pedro de Toledo na Rua Dona Alexandrina, na Vila Monteiro.

Com informações do site G1.

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