No universo da medicina, a espiritualidade tem ocupado um lugar de destaque. Diversas pesquisas mostram que associá-la ao tratamento médico proporciona ao paciente uma grande melhora.

Por espiritualidade entende-se  a dimensão do ser humano relacionada às questões de significado e propósito de vida; dimensão que reflete sobre o sentido existencial do indivíduo; e que pode ser buscada na religião, na música, arte, natureza ou mesmo em valores pessoais ou científicos, não necessariamente relacionados à alguma religião.

Mesmo sendo um tema recorrente, que tem gerado uma série de trabalhos científicos, congressos e seminários, por que será que a própria classe médica resiste em falar com seus pacientes sobre este assunto?

Vamos entender o por quê:

1) As pessoas querem falar sobre o assunto

Um dos motivos para os profissionais de saúde não abordarem a espiritualidade é o medo de achar que está impondo pontos de vista religiosos aos pacientes e não serem bem recebidos. No entanto, não é o que vemos na prática.

Em um estudo realizado pelo departamento de Medicina de Família da Northeastern Ohio Universities College of Medicine, cerca de mil adultos foram entrevistados e questionados se gostariam que o seu médico abordasse questões relacionadas à sua espiritualidade.

Em torno de 83% dos entrevistados relataram o desejo que os médicos perguntassem sobre crenças espirituais, sendo que os cenários mais aceitáveis ​​para discussão seriam aqueles que envolvessem doenças que ameaçam a vida, condições médicas graves e perda de entes queridos.

Além disso, acreditavam que as informações relativas às suas crenças espirituais interfeririam na capacidade dos médicos de encorajar a esperança, dar aconselhamento médico e mudar a terapêutica proposta, se fosse necessário.

Afinal, nos momentos de angústia e sofrimento, recorremos àquilo que faz sentido para nossas vidas e independente de qual prática ou crença seja, esta busca pelo que traz paz e conforto representa a nossa Espiritualidade. Nos mesmos estudos citados acima, também foi relatado que os pacientes sentiriam mais empa­tia e confiança no médico que questionasse esses temas, proporcionando uma intensificação da relação médico-paciente.

2) Há evidências de impacto na saúde

Outro motivo para não se falar sobre espiritualidade é a preocupação de atuar em uma área “não médica”, que não faria parte do papel do médico, ou ainda que não seria um conhecimento relevante ao tratamento médico.

Em uma robusta revisão da literatura publicada em 2012, foram analisados mais de 3 mil artigos em que o binômio Espiritualidade/Religiosidade provoca impactos positivos na saúde mental, nos hábitos de vida e na saúde física.

Os pacientes que exercem sua espiritualidade/religiosidade são mais esperançosos, otimistas e com um propósito de vida, afastando a depressão, ansiedade, suicídio e o uso de remédios.

Eles cuidam melhor do corpo com prática de atividade física, dieta saudável e menor prevalência de tabagismo.

Na saúde física, foi observado que a Espiritualidade está associada a menores índices de doença coronariana, câncer e acidente vascular cerebral, além de estar relacionada a melhor controle pressórico, menores índices de mortalidade por causas cardiovasculares e mortalidade em geral.

3) Existem instrumentos rápidos e fáceis para realizar a abordagem

A falta de tempo e de treinamento também são barreiras que impedem os médicos de abordarem a espiritualidade. Para quebrar esses muros existe um jeito rápido e fácil de fazer isso.

Existem diversos questionários elaborados com o fim de compreender a espiritualidade do paciente e coletar a chamada Anamnese Espiritual.

Dentre eles o FICA se apresenta como um questionário simples, fácil de se aplicar, flexível e rápido.

F – Fé/Crença: Você tem crenças que te ajudam a lidar com os problemas? O que te dá significado de vida?
I – Importância/Influência: Você tem alguma crença específica que pode afetar decisões médicas ou em seu tratamento?
C – Comunidade: Você faz parte de alguma comunidade religiosa ou espiritual? Ela te dá suporte?
A – Ação no tratamento: Como você gostaria que o seu médico ou profissional da área da saúde considerasse a questão religiosidade/espiritualidade no seu tratamento?

O FICA não necessariamente precisa ser realizado na ordem das letras e pode ser utilizado em qualquer momento da entrevista clínica em que haja abertura ao tema.

O objetivo central ao coletar a anamnese espiritual é compreender melhor como o indivíduo lida com a doença, o que e quem oferece suporte a ele, identificar crenças que possam impactar nos cuidados em saúde (positiva ou negativamente) e oferecer um cuidado integral, contemplando também os aspectos subjetivos do indivíduo.

4) A espiritualidade pode ser um problema

O Brasil é um país muito religioso. Mais de 90% dos brasileiros se autodeclaram pertencentes a alguma religião e é natural que essas pessoas utilizem de sua religiosidade/espiritualidade para enfrentar situações de estresse.

Esse movimento de utilizar as crenças para lidar com fatores de sress foi conceituado coping religioso/espiritual. Dizemos que a pessoa apresenta um coping positivo quando suas crenças estimulam hábitos de vida saudáveis, auxiliam a adesão ao tratamento, aumentam a resiliência ao estresse, entre outros benefícios.

No entanto, algumas pessoas podem apresentar um coping negativo, caracterizado por culpas, medos ou mágoas que podem dificultar o tratamento ou ainda gerar piores desfechos clínicos, além de delegar à Deus a solução do problema.

Ou então  fazer com que desista das práticas médicas, ou considerar a doença como “punição divina” por seus atos.

É necessário observar, detectar e intervir nas situações de coping negativo, mostrando ao paciente um outro significado, transformando-o em coping positivo. Esta intervenção pode se apresentar de forma mais complexa e demandar suporte de outros profissionais mais capacitados, como os capelões.

Contudo, a principal barreira para a abordagem da espiritualidade na prática clínica do profissional de saúde ainda é a falta de conhecimento sobre o assunto. Pouco se fala durante a formação médica, seja na graduação ou na residência.

Este cenário, no entanto, vem mudando com a criação de ligas acadêmicas em saúde e espiritualidade, disciplinas optativas e obrigatórias em diversas universidades e com a divulgação científica das evidências positivas desta prática.

Fonte: Portal Pebmed

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