Aldir Blanc nasceu no Estácio em 02/09/1946  e ainda criança se mudou para Vila isabel, bairros de grandes ícones da MPB como: Ismael Silva e Noel Rosa, respectivamente.

Seu avô Antônio Aguiar foi uma figura marcante na sua infância e dele Aldir herdou a quase obsessão pela leitura. Em sua casa tem uma coleção com mais de 15 mil livros.

“A vó Noêmia teve importância enorme no meu trabalho de compositor. Ela me levava a centros espíritas, e eu ficava fascinado pelos pontos cantados e pela batida dos atabaques. Chegava em casa, já na Vila Isabel, pegava meus tamboretes de peteca, que antigamente eram de madeira e couro, e batucava cantando meus próprios pontos, que ‘compunha’ imitando os que tinha ouvido.”- dizia

Em Vila Isabel, o jovem de 16 anos compunha, tocava bateria e conquistou o posto de baterista no grupo Rio Bossa Trio, que mais tarde virou GB-4.

Na década de 60 estudou medicina se especializando em psiquiatria. Exerceu a profissão e com o passar do tempo, a música, que nunca largara de fato, falou mais alto e se tornou o melhor remédio que ele poderia prescrever naqueles tempos tão sombrios.

Aldir Blanc trabalhou num hospital psiquiátrico na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, mas largou o emprego por não concordar com o tratamento com choques elétricos e abriu seu próprio consultório.

De vez em quando usava um método de tratamento nada ortodoxo: saía para conversar com o paciente na rua ou num bar.

Os festivais da canção

As décadas de 60 e 70 foram marcadas pelos grandes festivais nacionais e internacionais de música e Aldir Blanc participou de vários deles.

Compôs em parcerias com Silvio da Silva, César Costa Filho e suas canções foram interpretadas por artistas como Taiguara, Maria Creuza e Clara Nunes, vozes marcantes da década de 70.

No III Festival Universitário de Música Popular Brasileira, Aldir e Silvio da Silva ganham o segundo lugar com a música “Amigo é pra essas coisas” interpretada pelo MPB4.

No início da década de 70, acontece o grande encontro entre o psiquiatra Aldir e o engenheiro João através de um amigo em comum: Pedro Lourenço Gomes, que segundo os pesquisadores de MPB, foi o grande responsável pela formação da dupla.

Pedro estava de passagem em Ouro Preto em 1970 e se encantou com o jeito que o desconhecido João Bosco tocava violão em um bar e lhe falou do amigo psiquiatra que poderia colocar letras naquelas melodias.

Meses depois, ele chega com Aldir e mais dois outros músicos em Ponte Nova (MG) cidade natal de João Bosco e naquele dia saíram de uma tacada três músicas: “Agnus Sei”, “Bala com Bala” e “Angra”.

O trabalho da dupla era feito inicialmente por correspondência, já que moravam em cidades distantes. Naquele ano de 1972, a música “Agnus Sei” foi lançada como lado B de um compacto do histórico jornal “O Pasquim”. No lado A tinha a música “Águas de Março” cantada por Tom Jobim.

A madrinha Elis

Ainda em 1972, a dupla ofereceu algumas músicas para Elis Regina, que escolheu “Bala com Bala” para incluir no seu LP “Elis”. A partir daí, ela se tornou a madrinha da dupla.

Ela gravou pelo menos umas 20 composições deles e diversas vezes ouvia a produção das músicas para escolher o que iria lançar.

A dupla a presenteou com “O Bêbado e a Equilibrista”, que se tornou um dos grandes sucessos da sua carreira e o hino do movimento pela anistia e pelo fim da ditadura.

Na época, esta música teve a defesa de Ricardo Cravo Albin, pesquisador de música brasileira, diante do Departamento de Censuras e Diversões Públicas da Polícia Federal.

Um outro grande sucesso na sua voz foi “Dois pra lá, dois pra cá”.

Aldir Blanc contava que na sua mocidade, seu primo o levava para quadra da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, era apaixonado pelos sambas de quadra. E os sambas na voz de Elis Regina ganhavam outro ritmo: desacelerados, densos e dramáticos como o clima propiciado pela ditadura.

“Catavento e Girassol”, uma parceria de Aldir e Guinga que descreve uma relação amorosa forte na voz de Leila Pinheiro.

Novas parcerias e a literatura.

Na década de 80, a dupla João e Aldir foi se afastando sem brigas, nem traumas, embora na época ninguém acreditasse: “Nossos interesses ficaram divergentes. O João se internacionalizou, eu fiquei mais suburbano. Costumo dizer que todas as versões para o rompimento, por mais estapafúrdias e escrotas, são corretas.”- dizia o compositor.

Aldir teve outras grandes parcerias como o violonista Guinga, Moacyr Luz com quem experimentou a vertente do “samba sincrético” como “Medalha de São Jorge”.

Suas composições de parcerias diversas estiveram presentes na teledramaturgia da Rede Globo. Fafá de Belém cantou um dos temas da novela Tieta; Nana Caymmi gravou “Resposta ao tempo” para a mini série Hilda Furacão e o grupo Roupa Nova gravou  “A Viagem” tema de abertura da novela de mesmo nome.

Paralelamente à carreira de compositor, Aldir Blanc escreveu para vários jornais cariocas, dentre eles “O Pasquim”, tendo como inspiração os personagens do subúrbio e a sua infância em Vila Isabel.

Segundo Aldir, os personagens realmente existiram. Foram eles: o primo Esmeraldo, conhecido pelas domésticas da Penha como “Simpatia-É-Quase-Amor”, cujo apelido inspirou a criação do famoso bloco carnavalesco de Ipanema; Lindauro, notório boçal, mas com um coração enorme; Belizário, que bebia para não esquecer entre outros.

O livro “Rua dos Artistas e Transversais”, publicado em 2006, pela editora Agir- era disputado a empurrões. 

Daniel Chomksky, dono do tradicional sebo Berinjela situado no Centro do Rio, conta que teve de apartar dois fregueses que já iam às vias de fato na disputa por um exemplar do mais raro “Porta de Tinturaria”.

A disputa era entre um rapaz de óculos fundo de garrafa e pasta 007 e uma senhora um tanto gorda e bigoduda. A contenda foi resolvida em favor desta senhora, que apresentou argumentos insuperáveis: dizia-se tijucana de quatro costados, “bruaca” e, mais importante, estava citada no livro.

Antes de descobrir a diabetes em 2010, Aldir era um bom copo e costumava pedir o chope de modo inusitado: “Garçom, mais 18 sepulturas da memória!”; “Solta mais 20 canarinhos da gaiola!”; “Uma rodada de Alfavacas ao Luar para todos!”.

Dia 04 de maio de 2020, Aldir Blanc morreu em decorrência da Covid-19 deixando um legado esplêndido, que foi eternizado nas vozes de grandes cantoras, além de escrever com maestria sobre a alma carioca.

Fonte: Dicionário Cravo Albin, Wikipedia, Letras

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