Racismo, intolerância, desrespeito acontecem nos restaurantes, nas escolas, nas ruas, em cada esquina e até na própria família. E o pior é que estamos nos acostumando a isso.

Lutar para prevalecer os direitos básicos virou “mimimi”. Quem humilha se arvora em sua “superioridade” mesquinha e os humilhados têm que lutar o triplo para mostrar que são tão bons quanto ou se calam porque não lhes foi ensinado ousar e pensar criticamente.

No texto a seguir, Lya Luft apresenta diversas situações que nos fazem refletir sobre que tipo de sociedade nós queremos. Boa leitura!

Pecado mais-do-que-capital

Em uma escola de uma capital brasileira, alguns pais reclamaram com a direção: não queriam seus filhos estudando lado a lado com dois meninos estrangeiros, de um país que consideravam “atrasado e fanático”.

A direção, a meu ver pecando por compactuar com a intolerância, agravada pelo fato de envolver crianças, pediu aos pais que decidissem: alguém tinha de sair, tinha de tirar seus filhos. Resolvessem isso entre si.

Os pais dos dois menininhos estrangeiros, pressionados de um lado e desamparados de outro, tiraram os filhos da escola.

Diga-se de passagem que o pai era executivo de uma empresa, com vários diplomas importantes, e um currículo invejável; a mãe, professora universitária. Mesmo que fossem pessoas simples, um operário e uma doméstica, sua honra seria a mesma, seus direitos iguais.

Num restaurante de classe média, pessoas torcem o nariz e pagam a conta antecipadamente, sem concluir a refeição, porque na mesa ao lado sentou-se um casal de cor, com dois filhos adolescentes. Ninguém comentou ou reclamou que se tratava de um criminoso racismo, não comprovável mas evidente. A mocinha pôs-se a chorar e pediu para irem embora também. A família comemorava ali o décimo quarto aniversário dela.

Um filho decide largar os estudos superiores e pegar um emprego bastante bom, em uma empresa decente. O salário não era alto, mas a situação lhe convinha, ele preferia experiência a diploma, e isso estava lhe sendo oferecido.

O pai decidiu não falar mais com ele, negou-lhe qualquer ajuda monetária, e só não o expulsou de casa devido aos apelos da mãe. Porém, deixava claro, em todas as ocasiões possíveis, que o filho era “sua grande decepção”.

Um marido pede a separação depois de alguns anos bons e muitos ruins, o que estava evidente até para os amigos. A mulher, que certamente também não estava feliz (a não ser que fosse muito boba ou esperasse muito pouco da vida), primeiro recusou, depois sofreu, se humilhou, se deprimiu, caiu de cama, mas por fim teve de cair na realidade.

Passara a vida devotando-se aos outros, marido e filhas no caso, sem tempo ou energia para si mesma: desinteressada de si, quem sabe por isso desinteressante?

Surpreendentemente — ou não —, as duas filhas moças tomaram partido do pai, como se de repente a mãe, que delas cuidara por mais de vinte anos, se tivesse transformado em alguém desprezível.

Nenhuma das duas lhe perguntou, uma vez sequer, das suas dores; até a acusavam de não ter conseguido agradar melhor ao marido. Parecia-lhes natural tratar sem o menor respeito aquela que as tinha criado, amado, educado e orientado naqueles anos todos.

Nisso foram aliás secundadas pelos avós, que partilhavam a opinião delas sobre sua própria filha: incompetente para manter o casamento com um homem “tão bom, que não deixava faltar nada em casa”… o que mais ela queria?

Os casos se multiplicam, são muito mais variados e cruéis do que estes, existem em meu bairro, em seu bairro, em nossa cidade, em nosso país, neste às vezes melancólico planeta.

Nossa postura diante do inesperado raramente é de abertura e escuta. Não somos generosos, mas infantilizados e egoístas. Queremos todos os privilégios para nós, a liberdade, a esperança: para o outro, mesmo se antes era muito próximo, queremos a imobilidade. Cassamos, sem indagar, seus direitos humanos mais básicos, e nem ao menos procuramos saber onde está, como está, para onde vai.

O desrespeito, que não consta no índex das religiões mais castradoras, é com certeza um feio pecado capital — do qual, se nos examinarmos bem, poucos escaparão.

Lya Luft, crônica ‘Pecado mais-do-que-capital”, do livro ‘Em Outras Palavras. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.

 

 

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