Abraham Lincoln dizia que se você quisesse conhecer uma pessoa, que desse à ela poder.

Na história da humanidade vemos povos escravizando uns aos outros por conta de disputa de territórios e fontes de recursos naturais. Percebemos que a cadeia da seleção natural não se restringe apenas aos animais irracionais e que o poder nos faz perder o que nos resta de humano. Boa leitura!

A Ocasião

Uma experiência sobre a psicologia do encarceramento — realizada no verão de 1971, na Universidade Stanford, nos Estados Unidos — criou uma prisão fictícia onde 24 alunos voluntários foram divididos aleatoriamente como presos e carcereiros.

Os primeiros foram trancafiados, uniformizados e apelidados de acordo com seus números de inscrição. Os outros receberam a incumbência de vigiar os reclusos.

A pesquisa teve de ser interrompida após seis dias de prática, porque os que assumiram o papel da polícia, independentemente da índole pessoal ou do grau de amizade com os detentos, se revelaram carrascos sádicos e abusivos. Já os cativos, apesar de revoltas isoladas, foram de uma submissão vergonhosa.

Mesmo breve, o teste serviu para provar que a ética e os bons costumes não são valores intrínsecos. O homem é um ser gregário e influenciável, um animal que tende a imitar o que acontece em sua volta.

A ocasião faz o ladrão.

O senso comum liga o desejo de ocupar um cargo público ao sonho de enriquecer e ter acesso aos benefícios do poder. A vontade de promover o bem comum é tida como conversa para boi dormir.

É compreensível. Diante de tantos casos de desvio de verbas, tráfico de interesses e nepotismo, nos sentimos no direito de baixar o cacete na safadeza que governa o país. Mas me pergunto se eu, tão cheia de hombridade, resistiria às perversões da hierarquia.

A experiência americana me dá sérias razões para duvidar da firmeza do meu caráter. O poder corrompe e vicia.

Uma vez, um político foi me assistir no teatro. Fiquei honrada com sua presença, mas, à sua revelia, a lista de convites da delegação oficial não parou de crescer. Duas horas antes do espetáculo, um homem se apresentou na bilheteria como membro da comitiva e requisitou dois convites.

Perguntamos se deveríamos deduzi-los dos já reservados e ele disse que não, que os dele eram à parte. Nisso, chegou o chefe da segurança avisando que precisaria de mais um ingresso para a guarda. Explicamos que a casa havia lotado e que já estávamos ali, atendendo o pedido do outro senhor.

O oficial se mostrou surpreso e solicitou que o tal se identificasse. No cartão se lia algo como “segundo assistente do vice-secretário do cerimonial”. “E a outra entrada?”, indagou o segurança. “É para o meu amigo”, respondeu o quase assistente do subgerente. “Mas a produção da peça não tem nada a ver com isso!”, nos defendeu o superior.

O subsecretário do vice-chefe não achou que estava fazendo nada de errado. Não era roubo, trapaça ou esperteza; era direito, inerente ao cargo, mesmo um subcargo como o dele.

A fragilidade humana tem apego às regalias e a danação divina já não serve como intimidação. Quem vota no Rio de Janeiro sabe do que eu estou falando. Se os tribunais permitirem, a Lei da Ficha Limpa servirá para proteger o político de si mesmo.

A retaliação exemplar é a garantia da boa intenção. O altruísmo só existe porque a punição, moral ou genética, é tão ameaçadora que algo nos obriga a agir como heróis. Ou ratos.

Fernanda Torres, crônica “A Ocasião” do livro “Sete Anos”. São Paulo, Companhia das Letras, 2014

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