Basta andar pelas ruas de Assunção por alguns minutos que o visitante vai escutar a língua guarani em todos os lugares da cidade: da feira ao serviço público, os paraguaios têm atendimento bilíngue. E nas escolas, os alunos aprendem os dois idiomas: espanhol e guarani, apesar do primeiro ser predominante.

Diferente do que acontece aqui no Brasil, cujos idiomas indígenas caíram no esquecimento ou estão em extinção, lá a língua indígena marca sob pressão sua presença no território. E por incrível que pareça, o Brasil está entre os 8 países com maior diversidade de línguas do mundo. Temos mais famílias linguísticas que todo o continente europeu.

Durante a colonização da América do Sul, por muito tempo, os colonizadores proibiam o uso da língua nativa, afinal, eles tinham que ter controle sobre a terra que exploravam e a língua é um elemento importante. Mas como é que o Paraguai conseguiu reverter esta situação depois de séculos?

O guarani é falado por mais de 80% da população. Segundo Anai Britos, chefe do departamento de assuntos indígenas do Ministério da Educação e Cultura do Paraguai, o guarani se tornou uma língua de contato entre os povos indígenas do país.

Um outro dado interessante é que por mais que a ditadura de Alfredo Strossener tentasse vincular a língua indígena com a pobreza, a população continuou falando o idioma.

A ministra da secretaria de políticas linguísticas Ladislaa Alcaraz disse que a lei de 2010 oficializou o guarani, porque para as crianças é prejudicial em casa falar uma língua e ter outra na escola. Isto afetava a qualidade do ensino e com a introdução do idioma indígena até o comportamento mudou. Agora elas estão mais descontraídas e participativas.

Para colocar o idioma guarani em pé de igualdade com o espanhol, a escola tem um papel fundamental. Os alunos, até a conclusão do ensino médio, têm que falar e escrever fluentemente nos dois idiomas.

O material didático bilíngue está sob a responsabilidade da Academia Guarani de Letras, que foi criada pela lei de 2010. Depois da criação das regras formais da gramática, a lei estabelece o prazo de 3 anos para tornar o país totalmente bilíngue.

Com tudo isso, esta língua passou a ser valorizada. Ela está tanto no bate-papo informal das ruas como também nos ministérios e atendimento hospitalar. Muitas pessoas do interior do país não falam o espanhol e graças ao sistema bilíngue elas podem ser atendidas nos hospitais.

O cenário brasileiro é mais complicado por conta de uma diversidade maior de línguas indígenas, seria impossível adotar um sistema bilíngue. Uma alternativa é a lei de co-oficialização de línguas.

A proposta é tornar um ou mais idiomas oficiais junto com o português através de leis municipais. Atualmente 9 línguas indígenas são co-oficiais em sete municípios em quatro estados brasileiros: Amazonas, Roraima, Tocantins e Mato Grosso do Sul.

Para Rosângela Morello, coordenadora do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística, quando se pensa em fazer alguma intervenção sobre uma língua, está se fazendo uma intervenção sobre o que as pessoas sabem dessa língua. Se há proibição, está se proibindo toda uma identidade cultural e se a promovemos, estaremos promovendo a diversidade.

Fonte: G1

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