John Grogan, autor do best seller de “Marley e Eu”, traz nesta crônica uma reflexão sobre a tristeza dos animais de grande porte nos zoológicos, em especial os elefantes. Um animal que antes tinha uma planície e agora só lhe resta um cercado.

De uma maneira geral, também não se leva em conta o trabalho dos ativistas, como se fossem um bando de malucos que perdem seu tempo defendendo animais. É como se eles fossem coisas e defendê-los seria uma causa menor. Boa leitura!

Histeria do tamanho de um elefante

Talvez seja fácil chamar de maluca a extremista Marianne Bessey, ativista dos direitos dos animais que acaba de ser banida do Zoológico da Filadélfia. Quer dizer, fácil até olhar nos olhos dos animais gigantescos e majestosos que ela defende com tanta garra — alguns diriam histeria.

Até olhar nos olhos de um elefante preso. Aí existe alguma coisa. Algo mais do que uma existência dócil. Existe inteligência, inteligência brutal. Não há qualquer dúvida em relação a isso. Até o próprio website do zoológico faz menção à inteligência inata do animal. É imaginação minha ou existe também tristeza nesses olhos?

Tristeza e saudade?

Marianne Bessey acredita que sim, e ficou obcecada com a ideia de ajudar os quatro elefantes do zoológico a encontrar a liberdade — ou pelo menos algo parecido —em um santuário paquiderme de 2.700 acres no Tennessee.

Ela se transformou em um grande incômodo para a administração do zoológico, visitando regularmente os elefantes em seus espaços apertados, filmando-os, divulgando sua opinião de que os elefantes merecem ter mais espaço para se exercitar e não apenas alguns metros quadrados para serem vistos pelos frequentadores do lugar.

— Eles são tão inteligentes e tão formidáveis — ela disse por telefone.

Um pouco deprimidos

Marianne, que é advogada, começou a prestar atenção aos elefantes quando era criança. “Mas quando eu os via nos circos ou nos zoológicos, sempre sentia que havia alguma coisa errada”, ela disse. “Eles sempre pareciam um pouco tristes ou deprimidos.”

Em 1996, ela viajou para o Zimbábue para ver os elefantes selvagens em seu habitat natural e ficou espantada com a diferença no comportamento e na interação. E esses olhos inteligentes, profundos, ela insiste, tinham expressões diferentes. Não havia tristeza. Ela afirma que os elefantes do zôo não passam de “sombras” dos elefantes selvagens.

No ano passado ela começou a insistir com os funcionários do zôo para que permitissem a ida dos quatro elefantes para o santuário onde poderiam viver mais próximos da vida na natureza. Até agora, essa idéia não deu em nada. Ela está particularmente frustrada com a sorte de Dulary, uma fêmea de 42 anos, com um ferimento que a mantém presa em um cubículo de concreto desde agosto.

— É como colocar seu filho em um armário pelo resto da vida — ela disse. Enquanto aumentava sua frustração, no começo deste mês ela postou uma mensagem em uma sala de bate-papo da Internet, conhecida como Conexão Elefante, dizendo que gostaria que o diretor do Zoológico da Filadélfia, Alexander L. “Pete” Hoskins, experimentasse o que é ser “mantido em um armário de concreto durante seis meses para apressar sua morte”.

— Só estava extravasando minha frustração — ela disse.

O que ela não sabia era que os funcionários do zoológico estavam monitorando a sala de bate-papo (seus patrocinadores trabalhando) e deram queixa na polícia, alegando que seus comentários não eram abertamente, mas pareciam, uma ameaça de morte.

Uma ameaça, mas de que?

Assim, como não podemos ter ecoterroristas que fazem ameaças de morte em uma atração familiar, ela foi banida da área do zôo. Deixe-me pensar no assunto: quem está agindo histericamente?

Vamos cair na real. A ameaça que o zôo está tentando abafar nada tem que ver com a vida de seu diretor, mas com sua imagem, muito bem trabalhada pelo departamento de relações públicas.

Os zoológicos são lugares familiares, amigáveis, onde todos os animais são felizes o tempo todo. Não há espaço para questionamentos loquazes em relação ao fato de que os elefantes poderiam estar em melhor situação se estivessem em liberdade.

Eu gosto de zôos. Gosto do Zoológico da Filadélfia em particular, tanto que costumo adquirir um título anual. Gosto de levar meus filhos. Mas tenho que dizer: quando chego perto do cercado do elefante, eu também vejo aqueles olhos.

A maioria dos animais parece estar contente nas áreas cercadas. Mas os elefantes sempre me deixam com a sensação de que estão um pouco… tristes. Se pudessem falar, sabemos o que iriam dizer.

E não seria a respeito de como a vida é esplêndida quando você fica em um retângulo de pó para que as pessoas tirem fotografias. Outros grandes zoológicos permitiram a ida de seus paquidermes para santuários maiores onde hoje andam livremente.

Visite o zoológico, olhe para aqueles olhos profundos, inteligentes. Depois pergunte a si mesmo: não está na hora de a Filadélfia fazer o mesmo?

7 de julho de 2006

Livro : ” Cachorros encrenqueiros se divertem mais”, John Grogan autor do best seller “Marley & Eu”, Ediouro,  2008

 

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