A educação e a arte são transformadoras. Elas estimulam a quebra dos limites pessoais e apagam as fronteiras ao colocar em contato pessoas de mundos  diferentes.

Refletem a criatividade de um povo, que aproveita seu saber local e mistura com as informações que recebe e gera oportunidades.

Na história a seguir, Rubem Alves relata um exemplo de paixão pela música, de resiliência que supera a ignorância e a aridez da vida, e ainda é coroado com um grandioso exercício de gratidão. Boa leitura!

O Flautista

Fortaleza. Eu ia fazer uma fala. Aí me disseram que antes haveria um pequeno concerto de uma orquestra de flautas de crianças pobres: sorriso no rosto, camiseta abóbora, flautinhas na mão. O regente era um mocinho magro.

No fim, o Marcelo — esse era o seu nome — me convidou a visitar a orquestrinha na cidade de Aquiraz, bairro Tapera, a uma hora de Fortaleza.

O concerto aconteceria numa chácara, à noite. Mangueiras enormes, céu estrelado. Tocaram a sua alegria. Aí o Marcelo se juntou conosco. Pedimos que contasse sua história.

Família muito pobre. Pai bravo e batedor. Comiam os peixes que tarrafeavam num rio. E era preciso trabalhar para ajudar. Marcelo trabalhava numa padaria. Ganhava dez reais por mês. E ainda tarrafeava, depois de terminado o trabalho na padaria.

O seu grande sonho era ser músico, baterista. Pois um dia correu a notícia de que iriam formar uma banda. Quem quisesse que se candidatasse. 

O Marcelo se candidatou. Mas o homem que fez a apresentação do projeto nada falou sobre baterias. Em vez disso, tocou uma flautinha. O Marcelo se esqueceu da bateria e se apaixonou pela flauta.

O pai disse um “não” grosso e definitivo quando soube das intenções do filho. “Flauta é coisa de vagabundo. Filho meu não toca flauta…” Marcelo soube então que seu namoro com a flauta teria de ser como os namoros antigos, escondido.

A inscrição pra valer terminava às cinco da tarde. Marcelo, nessa hora, estava na padaria. Só pôde sair muito mais tarde, de bicicleta. No caminho, por aflição, caiu da bicicleta. Os peixes se espalharam e ele ficou todo escalavrado.

E foi assim que chegou ao lugar da inscrição com duas horas de atraso. Mas o homem da inscrição ficou com dó dele e o inscreveu. Ele tinha onze anos.

Acontecia que a flauta custava dez reais, o salário de todo um mês. Precisava ajuntar dinheiro. Passou a caminhar olhando para o chão, em busca de moedas perdidas.

Por um ano, juntou moedas de um centavo. Completou os dez reais. Comprou a flauta de plástico. Como não podia estudar em casa, pela braveza do pai, passou a estudar no alto de um cajueiro, de noite, longe de casa.

No cajueiro guardava a flauta. Mas, num dia de chuva, ficou com medo de que a flauta se estragasse com a água. Escondeu-a em casa. No fim do dia, voltando do trabalho, o pai o esperava. Havia encontrado a flauta.

O pai acendeu uma fogueira e a queimou, aplicando-lhe a seguir uma surra. Mas ele não desistiu.

Mais um ano juntando centavos até comprar nova flauta. Aí ele arranjou uma aluna. Pela aluna ganhava dez reais por mês! Uma fortuna. Outra aluna, e mais outra. Nove alunas! Noventa reais. O pai passou a gostar de flauta.

Foi então que o Marcelo teve a ideia de ensinar flauta para as crianças — sem nada ganhar. E assim surgiu a orquestra de flautas. Naquela noite, debaixo da mangueira, ele tinha dezoito anos.

“Eu tenho um sonho”, ele disse. “Gostaria de ter uma flauta de verdade, transversal. Mas ela custa muito caro. Vai levar muito tempo para ajuntar o dinheiro…”

Aí uma professora que estava na roda abriu-se num sorriso e disse: “Marcelo, eu tenho uma flauta guardada numa caixa de veludo. Flauta que ninguém toca… A flauta é sua!”.

Isso aconteceu faz tempo. O Marcelo entrou para a universidade, tornou-se flautista e regente. E continua ensinando música para as crianças por puro prazer, sem ganhar dinheiro. E não sei por que, o fato é que me elegeu seu padrinho… Tanta gente bonita e esforçada por esse Brasil imenso. Dá esperança.

Rubem Alves, crônica “O Flautista” do livro “Pimentas”, Editora Planeta, São Paulo, 2012

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