De acordo com a FAO (Agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) todos os dias 870 milhões de pessoas passam fome, não só pelas condições econômicas dos países como também por causa do desperdício.

O desperdício de alimentos de uma família brasileira composta por três pessoas em um ano pode ultrapassar R$ 1.000,00, valor superior ao salário mínimo nacional. Os dados são de estudo liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que ouviu 1.764 famílias em todo o País, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 2018.

A pesquisa mostra que cada família desperdiça, em média, 128 quilos de alimentos por ano. Os cálculos foram realizados pelo analista Gustavo Porpino, um dos líderes do levantamento, a pedido do jornal O Estado de S. Paulo e o do Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), com base nos valores do Instituto de Economia Agrícola (IEA), de São Paulo, em abril de 2019.

A análise levou em conta apenas o universo familiar, sem considerar perdas em restaurantes, empresas, hotéis e escolas. “Os R$ 1 mil perdidos ao ano representam apenas o gasto com a compra dos alimentos mais desperdiçados. Se levarmos em conta o custo da produção do alimento (plantio, consumo de água, transporte, etc) do preparo, que inclui gás de cozinha, óleo, água e outros recursos, o montante será ainda mais impactante.”- afirma.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a América Latina desperdiça, em média, 127 milhões de toneladas de alimentos a cada ano.

Em valores, seriam cerca de US$ 97 bilhões. A entidade elencou como um dos objetivos de desenvolvimento sustentável a redução pela metade do desperdício de alimentos até 2030.
Para Porpino, os números mostram uma contradição e uma oportunidade de aliar o combate ao desperdício com o fortalecimento da segurança alimentar no Brasil. “Temos características de países ricos no fim da cadeia, com elevado desperdício de alimentos, e características de países em desenvolvimento no início, com perdas na produção, transporte e nos mercados que descartam os produtos “feiosos”, mas não estão estragados. Temos uma grande oportunidade de pegar toda essa abundância que se perde e direcionar para a rede de enfrentamento à fome, como os bancos de alimentos, por exemplo, além de aprovar as leis que incentivam a doação de alimentos por parte do varejo.”

A cultura da fartura

Porpino afirma que alguns hábitos esclarecem esse elevado desperdício, próximo ao de nações mais ricas. A compra mensal é um deles, assim como o hábito da “fartura”. “O costume de fazer uma grande compra depois de receber o salário e encher a despensa faz com que as famílias preparem porções muito grandes e não aproveitem as sobras. Esses fatores comportamentais estão associados à valorização da abundância, da preferência por uma comida ‘fresquinha’ e até por haver certo preconceito com sobras de refeição, a ‘comida dormida'”.

Segundo o especialista, planejar melhor as compras e refeições, não adquirir alimentos em excesso e reaproveitar sobras é fundamental para reduzir a quantidade jogada fora. “A cultura do ‘melhor sobrar do que faltar’ também deveria ser mudada”, avalia.

Conscientização

Ele sugere ações educacionais e de comunicação realizadas por parcerias público-privadas para elevar conscientização da população sobre o problema. Recentemente, a Embrapa renovou memorando de entendimento com o WWF Brasil para dar continuidade à iniciativa “Sem Desperdício”, que inclui ações de comunicação para mudança comportamental.
“As estratégias para redução do desperdício podem ser direcionadas ainda para gerar novas oportunidades de negócio e incrementar a disponibilidade de alimentos saudáveis. O Brasil, por exemplo, produz muitas frutas e hortaliças mas, paradoxalmente, o consumo per capita é bem abaixo dos valores recomendados pela Organização Mundial de Saúde e as perdas e desperdício são muito elevados”, diz.

Segundo Gustavo Porpino, mudar esse quadro demanda ações em diferentes elos da cadeia produtiva. Ele diz que vê no Brasil tecnologias disponíveis e uma geração jovem empreendedora antenada com inovações sociais. “Se houver vontade política, podemos avançar consideravelmente”, estima.

A Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social apresentou as ações desenvolvidas pela pasta para o combate ao desperdício. Uma delas é a Rede Brasileira de Bancos de Alimentos. Em 2016 foram distribuídos, pelos 220 Bancos de Alimentos reconhecidos pela Rede, 59,7 mil toneladas de alimentos para 17.182 entidades assistidas.

O aplicativo Comida Invisível é uma espécie de “Tinder de Comida”, um caminho encontrado pela advogada Daniela Leite, o jornalista Sérgio Inácio e a publicitária Flávia Vendramin. Este aplicativo conecta restaurantes, bares, hotéis, buffets e pequenos mercados a creches, ONGs e até pessoas físicas que precisam de alimentos por meio de geolocalização. Quem quer doar alimentos próprios para o consumo, mas sem valor comercial, cadastra-se no app e informa o que tem, indicando a validade, data e a forma de entrega. Feito isso, a doação aparece como disponível para as entidades interessadas, que distribuem ou preparam comida nas proximidades. Se a doação for aceita, o doador confirma se fará a entrega ou se vai aguardar a retirada.

Um novo conceito de restaurante agita a Rua da Lapa no centro da cidade do Rio de Janeiro, é o Refeittorio Gastromotiva. É um projeto de gastronomia social que foi fundado em 2006 pelo empreendedor social David Hertz que funciona da seguinte maneira: o Gastromotiva dá cursos de formação de chefs e outros profissionais da gastronomia para jovens que não têm condições de pagar. Já o Reffetorio atende público comum na hora do almoço, cobrando preço justo e acessível por isso, mas, à noite, atende apenas pessoas emsituação de vulnerabilidade social. Para tanto, utiliza ingredientes doados por restaurantes, supermercados, em perfeito estado, mas que iriam parar no lixo. Desde o início do seu funcionamento foram recuperadas cerca de 35 toneladas de alimentos, que resultaram em 81 mil refeições distribuídas!  Hertz é co-criador do Movimento da Gastronomia Social. Uma iniciativa global que conecta pessoas, projetos, empresas, universidades, agências internacionais, governos e a sociedade civil em torno do poder transformador da comida.

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