A vida cultural no interior, dependendo da cidade, é quase inexistente. E nesta crônica de Rubem Alves podemos sentir o quanto um simples cinema pode agitar a vida das pessoas e o local.

O primeiro texto tem muita semelhança com o filme “Cinema Paradiso” do diretor Giuseppe Tornatori, além de revelar curiosidades de fatos típicos de cidades pequenas.

Segundo relatório da ANCINE, o Brasil já teve impressionantes 3.300 salas em 1975, era uma sala para cada 30 mil habitantes, 80% em cidades do interior, um parque exibidor descentralizado.

Desde 1997 esta realidade mudou devido as mudanças tecnológicas das salas de exibição, falta de investimentos dos exibidores, o surgimento em grande escala dos cinemas de shopping centers e agora  as plataformas de streamming.

A segunda crônica traz uma história curiosa, onde o dono do cinema da cidade em que Rubem Alves morou teve um papel importante na vida de uma consagrada artista. Vale a pena conferir, boa leitura!

O CINEMA

Meu pai fez construir um cinema. O cinema deu nova vida à cidade. As noites que anteriormente eram animadas por visitas passaram a ter novo fascínio.

A felicidade começava durante o dia, quando um bando de meninos saía pelas ruas carregando cartazes anunciando em altos brados o filme que seria visto. Esse seu serviço lhes valia assistir ao filme sem ter de pagar o ingresso.

Depois era o suspense da chegada do filme, vindo de Três Pontas, na jardineira. E como a jardineira chegava poucos minutos antes do início da sessão, ficava uma pessoa de guarda na rua Direita, defronte ao cinema, olhando para o alto da cidade, que era onde a jardineira aparecia.

Era só ela aparecer para que se anunciasse ao público: “Está chegando, está
chegando…” .

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Projetores antigos. Foto: Pixabay

Os filmes vinham em rolos de celuloide, à semelhança daqueles do filme Cine Paradiso. Com uma diferença: o cinema era mudo, viam-se as imagens, mas não havia som. O que os atores estavam dizendo aparecia em quadros que se intercalavam com as cenas.

Se, por acaso, uma personalidade importante chegasse após o início do filme, como era o caso do capitão Nenê, interrompia-se a exibição, enrolava-se o filme, e tudo começava do início.

Relata-se que houve o caso de um valente que, assistindo a um filme pela primeira vez, angustiou-se com uma cena em que a mocinha estava em perigo. Ele não teve dúvidas. Avançou sobre a tela para salvá-la, o que lhe valeu um galo na cabeça e muita caçoada. Isso não é de se estranhar.

Quando fui assistir a um filme pela primeira vez, em Varginha, terminado o espetáculo fiquei olhando para as portas que havia ao lado da tela, esperando que os artistas aparecessem.

O filme “O piano” mostra uma cena semelhante. Não se tratava de cinema, mas de um teatrinho de lençol, velas e sombras.

Um espectador ficou horrorizado quando viu a sombra de um malfeitor atravessar a sombra do peito de uma pessoa com uma espada — o que, no teatro de sombras, se faz de maneira simples, fazendo-se passar a espada pelo sovaco da pessoa a ser assassinada. Pois ele avançou sobre o lençol, pondo fim ao teatrinho…

O filme mais amado, que mais emoção provocava, era a Vida de Cristo, que se exibia na Semana Santa, para a edificação dos fiéis. Os filmes, sendo mudos, tinham de ser explicados em alta voz por alguém que já conhecia o enredo.

Era o caso do italiano que, no cinema do meu pai, explicava o filme da paixão.  “Aquele caricuta é San Pietro”, ele gritava.

Mas o furor romântico era provocado por Rodolpho Valentino, paixão de todas as mulheres. Os beijos nos filmes mudos, na década de 1920, eram mais emocionantes. Notem, eu disse emocionantes, não disse excitantes.

E isso porque o beijo requeria dos dois parceiros um conhecimento de artes marciais, em especial do judô. Era assim: o homem e a mulher estão juntos, de pé, um diante do outro. Aí o homem avança a sua perna direita pelo lado direito da mulher, até ultrapassá-la.

Em seguida, usando seus quadris como ponto de apoio de uma alavanca interfixa, aplica-os firmemente à parte exterior do quadril direito da mulher.

Ato contínuo, usando o braço direito, abraça a costela esquerda da mulher, exercendo pressão sobre ela, ao mesmo tempo que executa um movimento rotativo de tronco no sentido da sua esquerda, provocando o desequilíbrio da mulher num movimento de gangorra, sobre o apoio do quadril.

Desequilibrada, a mulher começa um movimento de queda para a sua direita, movimento esse que tem de ser interrompido pelo braço esquerdo do homem. Esse movimento provoca um desvio do centro de gravidade do sistema de forças que, se não for compensado, irá provocar a queda dos dois.

Sabendo disso, o homem faz avançar rapidamente a sua perna esquerda, restabelecendo-se assim, o equilíbrio do sistema. Nesse momento a mulher está na horizontal, apoiada na coxa esquerda do homem que segura sua cabeça também com a mão esquerda.

Foram assim executados os movimentos marciais preliminares necessários para se atingir a posição do beijo. O homem, de cabelo empastado com brilhantina, dá um beijo rápido, sem língua, na boca da mulher que, a seguir, desfalece de emoção.

Disse que os beijos eram mais emocionantes. E isso porque a atenção dos espectadores ficava toda concentrada no espetáculo de judô, alavancas, pontos de apoio, equilíbrios, desequilíbrios, centro de gravidade, aflitos ante a possibilidade de que os dois caíssem
no chão.

Mas se isso acontecesse o beijo deixaria de ser emocionante e passaria a ser excitante. Porque beijar no chão é outra coisa…

Imagino que os homens românticos de Boa Esperança, ao chegar em casa, tentassem repetir com as suas esposas os beijos do Rodolpho Valentino.

Mas duvido que tenham tido sucesso. O mais provável é que os casais terminassem no chão.

Posteriormente veio o progresso e os filmes mudos passaram a ser acompanhados por um disco no gramofone com as falas e ruídos adequados. Mas, como era um o que rodava a manivela do projetor dando assim a velocidade do filme e outro o que
dava corda no gramofone, frequentemente aconteciam descompassos. As falas aconteciam depois de o artista ter falado…

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Dercy Gonçalves e Ribeiro Fortes na peça teatral “Fé no Santo e Pé na Estrada”, 1966. Foto: Arquivo Nacional

OS ARTISTAS DA CAPITAL

O casalzinho visitante desceu da jardineira que vinha de Três Pontas. O jeito e as roupas indicavam que os dois eram de cidade grande, não eram de cidade vizinha.

Perguntaram por um hotel ou pensão em que se hospedar. Explicaram que eram artistas e
que estavam à procura de um teatro onde pudessem mostrar sua arte.

Ao que tudo indica os hotéis que o Almanak mencionava não haviam prosperado, possivelmente por falta de hóspedes. Não havia. Ficaram lá os dois como almas perdidas,
sem saber o que fazer.

Como o meu pai era um dos homens mais importantes da cidade, dono do cinema, o jeito foi os dois se hospedarem na casa do Diano. Queriam dar um espetáculo de arte. Alugaram o cinema.

Cidadezinha pequena, os homens entusiasmados com a loura, as mulheres com raiva da loura e raiva dos maridos de cabeça virada, era de todo improvável que alguém gastasse dinheiro com o espetáculo.

O Diano imaginou os dois diante do auditório vazio. Ficou com dó. E tomou uma decisão de homem rico que pode jogar dinheiro fora: comprou de si mesmo a lotação total do teatro e distribuiu os bilhetes gratuitamente pela cidade.

O teatro encheu. O espetáculo foi um sucesso. O casalzinho de artistas ficou encantado.

Deixaram Dores felizes, carteira cheia. Nunca suspeitaram do que havia ocorrido. O nome do homem eu não sei. Mas o nome da mulher era Dercy Gonçalves.

Até hoje ela não sabe. Eu sei porque quem me contou foi o Diano, meu pai.

Rubem Alves, crônicas “O Cinema” e “Os artistas da Capital” do livro ” O Velho que acordou menino”,  Editora Planeta, São Paulo, 2005

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