Esta crônica faz lembrar “A inglesa deslumbrada”, de Fernando Sabino, em que uma senhorinha pergunta se os índios andam pelas ruas e ela recebe a seguinte resposta: “Sim, e todos andam nus!”

Vale refletir sobre os esteriótipos que aceitamos resignadamente. A cultura é a  representação da alma de um povo. Um conjunto de saberes que difundimos mundo a fora como também são instrumentos de resistência.

Nós, os índios

Não é especificamente sobre os índios que escrevo, os aniquilados, arrasados, maltratados e abandonados apesar de algumas fanfarronices oficiais: falo de nós, os que os invadimos, multiplicando nossa fortuna e a desgraça deles, e agora os usamos para reforçar nosso lamentável conceito de “exóticos” no exterior.

Quando lá estamos, sempre a velha surpresa: como se sabe pouco sobre nós. Como nos exportamos mal (e em geral nos portamos mal).

De nós sabem e querem o chamado estranho quando não o esquisito, o pitoresco.
Um livro de uma brasileira que não fale de carnaval, favela, floresta e bichos parece um insulto. “Escritora brasileira?”, disseram-me certa vez. “Mas no Brasil existem editoras?”
Ou: “Livro muito bem escrito, mas não parece brasileiro, não tem mato, índios…”

Culpa nossa, que alimentamos a ignorância de europeus e americanos a nosso respeito.
Nem todo mundo pensa assim, claro, tem gente mais informada, mais antenada. Mas ainda ocorre. Como, agora mesmo, em Paris, aonde fui chamada a trabalho. A cidade inspira cada vez o conceito clichê, mas real: um charme.

Vida difícil, vida extraordinariamente cara mesmo para parisienses: em qualquer bistrô simples, um café e um chá, sem acompanhamento, somam 8 euros. Pensar em reais nos paralisaria, então fingimos que euros são nossa realidade e raspamos o fundo da bolsa.

Entre outras coisas, na Europa — onde eu não quereria morar, pois, apesar do nome e da cara, sou brasileira de carteirinha — sente-se a presença magnífica da cultura e da história. A dois passos de tudo, para qualquer lado, as melhores exposições de arte. Ou simplesmente passeios a pé à margem do Sena, por jardins que nesta época do ano, primavera plena, são indescritíveis. Bem-cuidados, muitos cercados e quase todos proibindo cães mesmo com coleira.

Por que achamos que nos trópicos é que estão as flores mais bonitas?
Algumas entrevistas, muita gentileza (o mito do francês, sobretudo parisiense, arrogante e seco caiu por terra. Turismo é necessário e bem-vindo em toda parte). Na minha editora francesa, confiro de novo como no Brasil, o grande trabalho feito por mulheres profissionais em relação ao livro e à cultura, e o esforço por difundir no exterior um Brasil mais culto.

No entanto, invariavelmente os jornalistas fazem algumas perguntas que seriam engraçadas se não fossem tristes: se há animais selvagens nas ruas de São Paulo, como sou loura sendo brasileira, se aqui existe alguma boa universidade, e… qual a influência do índio em minha literatura.

Levo um tempo para pensar na resposta, o interlocutor intrigado. Tenho de ser honesta, sempre o caminho mais fácil: a maioria imensa dos brasileiros nunca viu um índio.

Restaram poucos, dizimados por doenças, pobreza, bebida e abandono. Existem meritórias campanhas para que sejam protegidos, preservados ou integrados, mas muito há por fazer. Devemos nos envergonhar disso.

Num belo palácio parisiense, vejo uma exposição sobre os índios brasileiros: levaram-se alguns para lá, houve danças e pajelanças. Novamente os europeus se deliciam com o que pensam ser o “brasileiro”.

Nossa literatura urbana quase não se contempla por lá. Nossa realidade industrial, cultural, universitária, sociológica, aparentemente pouco interessa, ou porque é desconhecida, ou porque não nos levam a sério. O europeu ainda quer, de nós, o curioso: índios, floresta virgem, onças e de novo índios. Que tédio.

Culpa nossa, que exportamos demais caipirinha, mulatas, carnaval, favela e futebol, índios: tudo ótimo, desde que não seja mostrado como tudo.

Por outro lado, embora mais abertos às coisas de fora do que eles, pouco sabemos dos europeus. Por exemplo, como seus verdadeiros artistas viviam em grande simplicidade, ainda que fosse num castelo como o de Picasso em Vauvenargues, junto de Aix-en-Provence, onde comemos num boteco do outro lado da rua, atendidos pelo casal que servia ao pintor e sua mulher Jaqueline.

Picasso sentava-se à mesa como qualquer um, ia até à cozinha, espiava o que havia de bom, falava com todos, era igual entre iguais.

A mesma impressão nos ficou andando pelas trilhas de Cézanne, que era de família rica, e visitando seu comovente ateliê. Uma austeridade raiando a pobreza: o que lhe interessava não eram vernissages, badalações e notícias de jornal, nem mesmo a boa vida, mas a sua arte, silenciosa e solitária. O verdadeiro artista não precisa de “status”: ele tem mais o que fazer.

Segundo uma ridícula mas perigosa cartilha do politicamente correto que andou sendo anunciada aqui no Brasil, estou usando uma porção de palavras “malditas” e conceitos inaceitáveis.

Isso me alegra: tentar não entrar na manada dos intelectualmente dominados ou politicamente manipulados foi coisa que já meu velho pai ensinava — e vivia.

Lya Luft, crônica ‘Nós, os índios’, do livro ‘Em Outras Palavras. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.

Gravura de Debret

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