A expectativa de vida do brasileiro aumentou e vemos pessoas acima dos 50 ainda na ativa. Independentemente de crises econômicas ou não, o fato é que produzir algo de útil faz bem pro corpo e principalmente pra nossa mente.

Na  crônica a seguir, Lya Luft faz um breve paralelo entre o artista espanhol e a sociedade em que vivemos. Um homem que criou um dos movimentos mais representativos das artes plásticas e que só se aposentou quando morreu.

Podemos ser Picasso

Visitando uma exposição de obras de Picasso, aqui mesmo no Brasil, pensei: a gente é uma multidão de picassinhos latentes, apenas tolos demais para nos darmos conta disso, prisioneiros da nossa cotidiana mediocridade. Todos podemos ser Picasso.

Talvez não picassos-artistas, mas picassos da vida: entre outras maravilhas desse homem, além dos seus naturais defeitos, para ele a vida era um dom precioso que não podia ser desperdiçado. Saí de lá com essa idéia: por que não sermos todos Picassos de nós mesmos?

A vida é uma mesa posta: alimento sem sal, tudo light, ou alimento com as mais raras especiarias; ali pratos enfeitados (alguns, demais), aqui outros com cara de nada; uns aparentemente insossos, mas vai experimentar e são delícia completa; outros parecendo delícias, mas vai mexer, são veneno.

Haverá lugares vazios, pratos sem nada, cadeiras de perna quebrada: tudo isso faz parte. Se olharmos bem, com lugar para cada um de nós, que nem sempre ocupamos como poderíamos.

Todos somos capazes de exercer a arte da vida e da construção de nós mesmos. Cada um de nós tem sua parcela de dons: ensinar, contemplar, cozinhar, criar filhos para a vida, mexer em engrenagens, construir estradas, organizar uma comunidade, escrever textos, pintar, dançar, fazer música. Limpar uma casa ou uma rua, cuidar de velhos doentes, abrir barrigas, curar corpos e almas.

Ou simplesmente sonhar para que outros sonhem junto, não é isso boa parte do que fazem os artistas — o sal da terra, como os loucos?

Não tenho talento para a pintura, mas um dia desses, estressada, resolvi fazer aquarela. Logo aquarela, que é tão difícil?

Era o que eu queria, que fazer? Tive aulas com uma amiga pintora, mas quando ouvi as explicações e abri os livros que ela me emprestou, decidi que a esta altura da vida não quero mais aprender teoria nenhuma. Ao contrário, ando empenhada em desaprender uma porção delas.

Fiz umas aquarelas ruins, desobedecendo propositadamente às instruções mais elementares. Porém os títulos das pequenas obras-de-não-arte eram bem bonitos: “Flores espantadas ao sol”, “Olho azul aguardando o amanhecer”, “Ascensão perplexa”.

Decidi que meu território continua sendo o das palavras, e desisti de pintar.
Mas, de brincadeira, combinei com minha amiga que um dia faríamos uma exposição (ela, a curadora) em que minhas poucas aquarelas ficariam voltadas para a parede, aparecendo só os títulos escritos no verso, e se chamaria: “Versos de aquarelas.” A experiência serviu para boas risadas: grande terapia.

Voltando a Picasso: ele não teve vida fácil. Enfrentou conflitos pessoais e mundiais, soube ser sério, soube ser doido, soube ser humano, soube ser brincalhão, soube ser igual aos mais simples.

Criou obras incríveis, cometeu erros como todo mundo, foi amigo, apaixonou-se e fez filhos mesmo numa idade que para a maioria de nós, os acovardados, é a morte antecipada pelo preconceito ou pela acomodação.

Picasso não se aposentou da existência, como em geral fazemos aos cinqüenta anos, aos sessenta ou pouco depois, se é que não nascemos aposentados. Vestimos o pijama ainda que metafórico, arrastamos as pantufas pelo corredor da vida, para nos sentarmos na cadeira de balanço da amargura, abraçados à almofada das eternas lamentações, ah como fomos injustiçados, como nada deu certo, quanto nos sacrificamos.

Podíamos imaginar que, ainda, ou pela primeira vez, é possível tomar nas mãos as rédeas da nossa sorte e criar: se não quadros maravilhosos, pelo menos a nossa própria vida — enquanto pulsar alguma inquietação em nós.

Lya Luft, crônica ‘Podemos ser Picasso’, do livro ‘Em Outras Palavras. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.

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