O poeta português Fernando Pessoa decretou que as cartas de amor são ridículas, porém as pessoas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. Receber carta de amor é muito bom sim, pronto falei!

Afinal, quem nunca sentiu aquele friozinho na barriga quando o carteiro gritou o seu nome com uma carta na mão? Apesar da fria modernidade e instantaneidade dos emails e mensagens de whatsapp, o papel perfumado, a caligrafia perpetuam a lembrança bem juntinho de nós.

Nesta crônica Rubens Alves revela a curiosa história de Lamartine Babo que se apaixonou por uma mulher que nunca existiu. Ao descobrir que tudo não passou de um ato inconsequente de um amigo, Lamartine transformou a dor numa linda canção, que acabou projetando o nome da cidade, onde moraria sua “amada”.

O LUGAR

Era um Macondo, uma monotonia sem fim perdida no sul de Minas. O tempo estava cheio de horas em que nada acontecia, aquelas horas em que se vê o mundo melhor…

Seus nomes anteriores haviam sido Nossa Senhora das Dores do Pântano, Nossa Senhora das Dores do Pântano das Lavras do Funil, Dores da Boa Esperança e, finalmente, Boa Esperança. Poucos sabiam da sua existência.

Foi o Carlos Neto que deu fama a Boa Esperança. Que razões teriam levado o Carlos Neto a fazer aquela maldade com o Lamartine Babo? Não sei. Sei que ele tinha estado doente de amor. Há um desenho em que ele e a sua amada estão namorando de mãos dadas num banco de jardim com as gravatas amarradas. Naquele tempo as mulheres usavam gravata. Aí sua amada o abandonou e o nó das gravatas se desfez. Para se curar da sua tristeza ele escreveu a canção “Teu juramento”, que termina com um lamento:

“Nas noites frias quando a lua vem cobrir com o manto seu

A estrada nua e desolada onde o nosso amor nasceu.

Vou tristemente pelas curvas do caminho abandonado

Solfejando a canção do triste exilado.”

Hoje ninguém mais se lembra dela. Quantas canções se perderam no esquecimento…

Foi depois disso que ele fez a maldade. Pôs-se a escrever cartas de amor para o Lamartine Babo, assinando o nome de uma mulher inexistente, Nair. O Lamartine, que era tido como um dos homens mais feios que Deus colocou no mundo, carente de amor, apaixonou-se pela mulher que não existia.

As coisas que não existem podem muito. Na verdade apaixonou-se pelas cartas. É fácil apaixonar-se por cartas. Porque as cartas, como as fotos, estão livres da presença da pessoa. E é mais fácil amar uma pessoa ausente. Disse o Cassiano Ricardo: “Por que tenho saudades de você no retrato, ainda que o mais recente? E por que um simples retrato, mais que você, me comove, quando você mesma está presente?”.

Gabriel García Márquez, no seu livro “O amor nos tempos do cólera”, conta o que aconteceu com o Fiorentino Ariza depois que sua amada Firmina Daza, obrigada pelo pai, casou-se com o doutor Urbino.

Alucinado de amor, foi despedido do seu emprego de escriturário de uma companhia de navegação porque as frias cartas comerciais que deveria escrever passaram a ter a música de cartas apaixonadas. Tendo de ganhar a vida como podia, montou numa praça uma banca de produção de cartas amorosas, ao lado das bancas dos rábulas e advogados novos que vendiam requerimentos e petições.

Era-lhe muito fácil escrever cartas de amor. Se era um homem que a pedia, ele imaginava que a destinatária era a sua querida Firmina. Se era uma mulher que pedia, ele imaginava a carta que gostaria de receber da Firmina. Seu negócio prosperou. Um dia, um jovem lhe pediu que escrevesse uma carta para sua amada. Ele o fez, cheio de amor pela Firmina.

Passada uma semana, uma jovem pediu-lhe que escrevesse uma carta em resposta a uma carta de amor que recebera. Era tão maravilhosa que ela não se sentia em condições de respondê-la. Com essas palavras passou-lhe o envelope. Era a carta que ele escrevera a pedido do jovem.

A partir daí ele se envolveu numa furiosa correspondência amorosa consigo mesmo com o resultado de que os dois ficaram perdidamente apaixonados um pelo outro e resolveram se casar. Uma vez casados, pelas conversas que trocaram, descobriram o que acontecera. Quando o seu primeiro filho nasceu escolheram o Fiorentino como padrinho… Tudo por causa das cartas.

old letter 3054235 640 - Na crônica "O Local", Rubens Alves mostra o poder que as cartas de amor têm

O Carlos Neto ignorava o poder das cartas. Não imaginou que o Lamartine Babo iria se apaixonar pela Nair que não existia. Apaixonado pela Nair, sem saber que sua paixão real era pelas cartas, resolveu visitar a sua amada que morava em Dores da Boa Esperança. O telegrama dizia: “Nair: chego sexta-feira. Abraço respeitoso. Lamartine Babo”.

O Carlos Neto ficou em pânico. Convenceu sua irmã a fazer passar-se pela Nair — sem adverti-la sobre a feiúra do Lamartine. Foi desamor à primeira vista. Trancou-se no quarto. Os sonhos do Lamartine desabaram. Nada de passeios românticos pelos jardins ao perfume das murtas, nada de mãos dadas, nada de gravatas amarradas… Lá estava o Lamartine com a sua paixão, sem um objeto onde colocá-la.

Mas paixão não consegue viver assim, solta. Foi então que ele viu a serra da Boa Esperança ao longe e a sua paixão se agarrou a ela. E o seu amor se transformou numa canção. Meus parentes me contaram: “Ele se assentou naquele banco ali, na praça, e lá escreveu a canção, letra e música…” .

“Nós os poetas erramos, porque rimamos também

Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem

Serra da Boa Esperança não tenhas receio

Hei de guardar tua imagem com a graça de Deus

Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora

Deixo a luz do olhar no teu luar

Adeus.”

Quem lê com atenção percebe que não é sobre a serra que ele fala. Rimar os olhos “nos olhos de alguém que não vem”, deixar “a luz do olhar no teu olhar” — essas coisas não se dizem a uma serra. A serra da Boa Esperança tinha um nome de mulher: Nair…

Foi a tristeza de amor do Lamartine que transformou aquela cidadezinha desconhecida numa canção. Se o amor tivesse dado certo ele não teria escrito a canção. E Boa Esperança não teria sido cantada.

Um dia subi até o alto da serra. Lá de cima se vê o vale lá embaixo. Boa Esperança, diminuída na distância, deitada entre o verde dos campos e o azul do rio Grande, imenso, que Furnas transformou em mar. Lá de cima, olhando para baixo, a gente pergunta: “O que estarão fazendo?”.

Antoine de Saint-Exupéry fazia a mesma pergunta nos vôos noturnos, ao ver os pontos luminosos que marcavam casas e pessoas, lá embaixo, no meio da escuridão. Vi uma pedra no chão, pedra comum, sem nada de especial e pensei que ela estava lá há milhões de anos, contemplando o vale. Peguei os milhões de anos nas mãos e o vale que ela tinha dentro… Aí fiz uma maldade: tirei-a da sua casa e trouxe-a para o meu escritório. Quando olho para ela lembro-me da serra e do vale…

Assista à um clip de José Antônio Costa com a música Serra da Boa Esperança de Lamartine Babo na interpretação de Eduardo Dusek

 

Rubens Alves, “O Local” do livro ” O Velho que acordou menino”, Editora Planeta, São Paulo – 2005

 

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Revista Ecos da Paz
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