De acordo com o IPEA e o Sistema Único de Assistência Social, a população de rua no Brasil ultrapassou a casa dos 200 mil habitantes em 2021.

Pessoas que há muito tempo só conhecem o sub-emprego, a violência e são invisíveis diante do Estado e da sociedade, ganham uma nova perspectiva de vida: a “Revista Traços“.

A Traços é uma publicação que vai muito além das reportagens sobre cultura. Ela tem sido um instrumento de reinserção social e de resgate da autoestima dos moradores de rua e de pessoas em extrema vulnerabilidade nas cidades de Brasília e Rio de Janeiro.

A revista nasceu em Brasília em 2015 e tem um modelo de negócio ousado. Mesmo estando nas mídias sociais como facebook, youtube, o carro-chefe é a publicação impressa.

A Revista Ecos da Paz entrevistou o editor-chefe André Noblat para saber como o jornalismo cultural foi capaz de cativar pessoas tão sem perspectivas.

Ecos da Paz – A revista existe desde 2015 e o seu site é uma vitrine do impresso para venda de assinaturas e/ou exemplares. Qual é a fórmula de sucesso deste empreendimento, a partir do momento em que as pessoas querem ler textos curtos na internet?

André Noblat – O empreendimento tem dois apelos muito forte: um social, o de tirar as pessoas desta situação de rua, de vulnerabilidade e o outro, editorial. A revista tem uma preocupação com textos mais apurados, uma bela fotografia, um grande apelo visual e além disso, a revista já ganhou 13 prêmios.

Ecos da Paz – Como profissionais de comunicação, sabemos que as publicações online que têm um nicho acabam ganhando destaque. No seu caso, que é uma publicação offline, física, como está o mercado para o jornalismo cultural? Qual o tamanho do seu público, assinaturas?

André Noblat – A Traços não é uma revista comum, ela é uma ferramenta de reinseção social. Os moradores de rua são chamados de porta-vozes da cultura e vendem a revista. Eles ficam com 70% e com os 30 % eles compram novas publicações.              A questão da assinatura é algo recente, ainda não temos como quantificar. Aqui, em Brasília, nós vendemos uma média de 4 mil exemplares e no Rio de Janeiro temos a expectativa de vender cerca de 10 mil revistas quando todos os vendedores estiverem nas ruas.

Ecos da Paz: Desde a sua criação, a Traços trabalha com os moradores de rua como vendedores da revista?

André Noblat – Sim, mas esta proposta não é uma invenção da Traços, isto existe em 125 cidades do mundo. Tem nos EUA, Alemanha, Inglaterra, Argentina. Chamamos de “street papers”, cujo objetivo principal é a reinserção social destas pessoas, mas também queremos atingir o público no geral.

Ecos da Paz – A Traços já conseguiu reinserir socialmente mais de 170 brasilienses, eles deixaram de morar na rua? Pergunto isso, porque às vezes a pessoa até consegue um trabalho, mas não dá pra bancar todos os custos, um aluguel, e continua na rua. No geral, como está a situação deles?

André Noblat – Em Brasília, conseguimos reinserir cerca de 180 pessoas. Gente que saiu da rua definitivamente. Alugou o seu espaço, tem uma renda, autonomia e autoestima para tocar a vida adiante.

A ideia é que a Traços seja uma ferramenta de passagem, porque muitos conseguiram empregos formais, outros estão aproveitando a oportunidade para estudar, se aprimorar.

Ecos da Paz – No Rio de Janeiro, esta iniciativa de vocês conseguiu apoio e patrocínio do governo estadual, municipal e de outras organizações. Em Brasília também segue este modelo? O quanto a parceria público/privado funciona para melhorar a vida destes moradores em situação de rua?

André Noblat – Em Brasília também trabalhamos com as leis de incentivo e a parceria público/privado é fundamental seja para projetos culturais e sociais como a Traços ou somente culturais. Nosso país ainda engatinha em relação a importância que a cultura tem.

Ecos da Paz – Quantos destes vendedores a revista tem atualmente? Há muita desistência?

André Noblat – São pessoas muito vulneráveis, que não são contempladas com políticas públicas, é natural que exista a evasão. Apesar disso, em Brasília já passaram mais de 350 pessoas, muitos se estabeleceram e hoje em dia estamos com 42 pessoas.

Entretanto, a taxa de sucesso do nosso projeto é mais de 50% em relação à outros que atendem à este mesmo público. E no Rio de Janeiro esperamos estrear com mais de 100 vendedores nas ruas.

Ecos da Paz – Lendo o release, eu me lembrei imediatamente do jornal Boca de Rua, um tablóide que é editado, redigido pelos próprios moradores de rua de Porto Alegre. A publicação, que é impressa, tem a supervisão de jornalistas. E os próprios moradores de rua vendem o tablóide. Os vendedores da Traços contribuem com pautas?

André Noblat – O “Boca de Rua” tem a mesma lógica de projeto, tentar a reinserção social, mas a Traços dá à eles um atendimento social mais presente. Trabalhamos em parceria com assistentes sociais, psicólogos e há 3 anos a Fiocruz acompanha o nosso trabalho.

Nossos porta-vozes da cultura dáo sugestões de pauta, mas eles não participam da produção da revista. Nós fazemos uma leitura conjunta para eles conhecerem o que estão vendendo. Ao saírem para vender a revista, eles são acompanhados por nossos supervisores.

Ecos da Paz – O projeto tende a se expandir para outros estados atendendo outros moradores em situação de rua? Quais os planos futuros?

André Noblat – Levamos cinco anos para sair de Brasília de forma bem estruturada. Criamos uma “tecnologia social”, uma metodologia de trabalho específica que nos permite detectar as carências e nos precaver quanto à possíveis falhas.
Estamos usando esta mesma metodologia no Rio de Janeiro, que é executada de forma satisfatória no Rio de Janeiro e há uma possibilidade de irmos para o Ceará.

A Revista Traços tem em seu canal no youtube uma série de vídeos chamada “Traços da Gente”, que conta a trajetória destas pessoas que de invisíveis se tornaram protagonistas de suas próprias histórias.

Vale a pena conferir a dramatização sobre a vida da Miryam Dantas.

 

https://youtu.be/6f6qIoowToE

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Viver em harmonia é possível quando abrimos o coração e a mente para empatia e o amor.