Existem aquelas pessoas que dão um boi pra não entrar numa briga e uma manada para não sair dela. E há também aqueles que ficam serenos iguais à um Buda, impassíveis, enquanto seu agressor vai ficando cada vez mais roxo de raiva porque não consegue tirar a paz do outro.

O “não reagir” muitas vezes é um elemento surpresa, ele “desmonta”o agressor. Mais do que nunca é necessário perceber que “dar a outra face” não é fazer papel de trouxa, mas uma boa estratégia para manter a sua paz e focar no que realmente importa. Nesta história, com quem você se identifica? Boa leitura!!

Presente de insultos

Certa vez existiu um grande guerreiro. Embora idoso, ainda era capaz de derrotar qualquer desafiante. Sua reputação estendeu-se longe e amplamente através do país e muitos estudantes reuniam-se para estudar sob sua orientação.

Um dia um infame jovem guerreiro chegou à vila. Ele estava determinado a ser o primeiro homem a derrotar o grande mestre. Junto à sua força, ele possuía uma habilidade fantástica em perceber e explorar qualquer fraqueza em seu oponente, ofendendo-o até que este perdesse a concentração.

Ele esperaria então que seu oponente fizesse o primeiro movimento, e assim revelando sua fraqueza, atacaria com força impiedosa e velocidade de um raio. Ninguém jamais havia resistido a ele além do primeiro movimento.

Contra todas as advertências de seus preocupados estudantes, o velho mestre alegremente aceitou o desafio do jovem guerreiro.

Quando os dois se posicionaram para a luta, o jovem guerreiro começou a lançar insultos ao velho mestre. Ele jogava terra e cuspia em sua face. Por horas, verbalmente ofendeu o mestre com todo o tipo de insulto e maldição conhecidos pela humanidade.

Mas o velho guerreiro meramente ficou parado ali, calmamente.

O jovem guerreiro ficou exausto. Percebeu que tinha sido derrotado, e fugiu envergonhado.

Um tanto desapontados por não terem visto seu mestre lutar contra o insolente, os estudantes perguntaram:

“Como o senhor pôde suportar tantos insultos e indignidades? Como conseguiu derrotá-lo sem ao menos se mover?”

“Se alguém vem para lhe dar um presente e você não o aceita,” o mestre replicou, “para quem retorna este presente?”

Não aceitar os insultos que nos fazem é uma arte. Geralmente nos ofendemos e ao ficarmos ofendidas reagimos.

Toda a prática do Zen é o treino de compreender nossos condicionamentos e, ao invés de reagir, agir. Escolher nossa resposta. Para tanto precisamos estar centradas, equilibradas, capazes de conhecer a nós mesmas e não nos intimidarmos com insultos e grosserias.

No cristianismo talvez seja a expressão de “dar a outra face”, ou seja, jamais responder a agressão com agressão.

No momento em que nada abalou o mestre, este venceu.

Quando jovem fui estudar Karate-Do. Certa ocasião havia um grande campeonato. Na nossa academia de Karate-Do havia um jovem brasileiro, loiro, de pernas longas, que era um faixa preta excelente.

Nós todos fomos assistir ao combate. E ele estava ganhando muito bem, até o momento em que foi atingido pelo seu oponente de forma imprópria. Não houve a desqualificação e a luta continuou. Entretanto, ao final, nosso campeão perdeu.

Surpresos nos aproximamos de nosso mestre para saber por que ele fora reprovado. E o mestre disse:

“Ele perdeu quando ficou com raiva. O outro deu um golpe proibido e sangrou o seu nariz. Invés de continuar a lutar com arte e frieza, ficou bravo e quis revidar, quis mostrar que era melhor. Foi aí que perdeu.”

Eu tinha cerca de 21 anos de idade. Foi a primeira vez que me dei conta de que a habilidade física não é nada sem o controle mental. Essa talvez seja a arte mais difícil de se conquistar.

Monja Coen, “Presente de Insultos” do livro “108 contos e parábolas orientais”, São Paulo, Editora Planeta, 2015

Foto: Vlado Pirsa. Uma das finalistas do concurso de fotografia mais divertido da vida selvagem.

 

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