Quando se fala de meio-ambiente, a Amazônia é um dos destaques no Brasil e no mundo. E o que mais tem se destacado na mídia é o descaso em relação ao desmatamento. Contudo, existem projetos que tentam reverter o quadro de degradação.

De acordo com o levantamento inédito da Aliança pela Restauração da Amazônia, até dezembro de 2020, existiam 2773 projetos de restauração do bioma.

Estas iniciativas cobrem 113,5 mil hectares da floresta amazônica, porém a área devastada é de 1,1 milhão. Levando em consideração que cada hectare equivale à um campo de futebol profissional, dá pra imaginar o tamanho do estrago.

É agora ou nunca !

De acordo com o cientista Carlos Nobre, a floresta amazônica já perdeu cerca de 17% da floresta original e se o desmatamento chegar à 25%, não haverá ponto de retorno, não haverá  reconstrução.

Por parte da Aliança pela Restauração da Amazônia, a secretária-executiva Danielle Celentano, diz que uma das formas de se ampliar esta restauração é com o cumprimento da lei.

“O Código Florestal, de 2012, estabeleceu que apenas 20% das propriedades na Amazônia podem ser desmatadas e determinou a restauração das áreas de floresta que foram suprimidas ilegalmente, mas o prazo para cumprimento tem sido sucessivamente adiado.”- afirma.

A Aliança pela Restauração da Amazônia congrega 80 instituições e fez um mapeamento inédito das iniciativas de reflorestamento.

São projetos geridos por agricultores, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil e governo.

Vamos aos números: organizações da sociedade civil (87,5% dos projetos mapeados). Em seguida estão empresas (5,6%), agricultores (3,8%), instituições de pesquisa (2,4%) e governos (0,7%).

São os projetos de empresas, porém, que respondem pela maior área em recuperação (52% do total). O levantamento mostra ainda que Rondônia concentra o maior número de iniciativas (1.658), mas responde por apenas 9% da área em restauração. Já o Pará concentra 49% da área total mapeada e Mato Grosso, 27%.

Um destes projetos é o Café Apuí no Amazonas, em que 59 famílias produzem café orgânico em 33 hectares de sistemas agroflorestais — método de cultivo em que coexistem na mesma área o cultivo agrícola e outras vegetações.

A iniciativa, que já plantou 32 mil árvores, recuperou antigos cafezais que estavam abandonados por baixa produtividade devido a degradação do solo.

O mapeamento recomenda que o reflorestamento aumente em grande escala, mas alerta que os projetos não substituam a preservação da floresta que ainda está de pé. É necessário combater o desmatamento ilegal.

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Plantio de mudas pela ONG Ecoporé em Rondônia. Uma das técnicas mais usadas de reflorestamento. Foto: Divulgação

Os métodos de recuperação

De acordo com o documento da Aliança, parte da floresta consegue se recuperar sozinha. Isto acontece quando a parte destruída é abandonada, mas esta vegetação secundária não tem a mesma biodiversidade da mata nativa e sempre corre o risco de ser desmatada novamente.

O desmatamento nessas áreas têm sido, em média, 40% maior do que em florestas primárias.

Desta forma, o documento da Aliança considera como área em restauração apenas os espaços de vegetação secundária que estão em “regeneração natural assistida”. Ou seja, que recebem interferência humana para evitar novos desmatamentos e aumentar a biodiversidade. Segundo o documento, há 147 projetos desse tipo, que cobrem 12% do território mapeado.

A semeadura direta é feita em 185 projetos que cobrem 3% da área mapeada e tem se mostrado um processo barato e eficaz. A técnica foi batizada de “muvuca”, que
consiste em plantar com máquinas agrícolas uma mistura de sementes agrícolas e florestais, de espécies de ciclo curto, médio e longo.

A maioria das iniciativas é de sistemas agroflorestais. Uma técnica de restauração florestal produtiva que garante retorno econômico, servindo como instrumento importante para evitar novos desmatamentos.

Um desses projetos, o Cacau Floresta, envolve 250 famílias que desde 2013 já restauraram mais de 500 hectares da Amazônia nos municípios de São Félix do Xingu e Tucumã (Pará), cidades que estão no chamado Arco do Desmatamento (região com maiores taxas de destruição da floresta que engloba partes do Maranhão, Pará, Mato Grosso, Rondônia e Acre).

A iniciativa, que alia o cultivo de cacau com outras espécies nativas, recuperando áreas degradadas pela pecuária extensiva, é desenvolvido pela The Nature Conservancy (TNC) — organização que atua com preservação em mais de 60 países e também integra a Aliança pela Restauração na Amazônia.

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Sistema Agroflorestal dentro da reserva Chico Mendes, no estado do Acre. Foto: Flávio Forner/Divulgação

O que falta para um reflorestamento efetivo?

De acordo com o documento da Aliança, é necessário que o Brasil priorize o Acordo de Paris, no qual o país assumiu o compromisso em 2015 de restaurar 12 milhões de hectares até 2030.

Para alcançar esta meta, foi criada em 2017 a Política Nacional para Recuperação da Vegetação Nativa, contudo o governo Jair Bolsonaro não tem dado continuidade.

Os estados também devem cumprir o seu papel implementando os Programas de Regularização Ambiental (PRAs), previstos no Código Florestal, passo fundamental para que propriedades que desmataram mais de 20% na Amazônia recuperem a área destruída ilegalmente.

A publicação da Aliança destaca a criação e implementação de serviços ambientais como o mercado de crédito de carbono, para que as áreas restauradas, que têm grande capacidade de capturar e armazenar carbono da atmosfera, possam gerar retorno aos proprietários.

Outra recomendação é o aumento das linhas de crédito para financiar esses projetos, assim como compromissos mais ambiciosos de empresas e bancos para não realizar negócios com fornecedores que não estão com suas propriedades legalmente restauradas.

Fonte: BBC

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