João Ubaldo: um escritor que reinava na ilha de Itaparica na Bahia, que produziu sua obra muito a vontade de bermudas e chinelo de dedos. Dono de um sorriso largo, foi um dos grandes intelectuais que produziu inúmeras crônicas para jornal e best-sellers.

Algumas de suas obras foram adaptadas para tv e também teatro, como “A Casa dos Budas Ditosos”, um monólogo com Fernanda Torres, que escreve a crônica abaixo onde relata a sua convivência com o escritor por conta da peça.

O texto de Fernanda mostra que João Ubaldo é quase um estado de espírito. Para ler no balanço da rede.

Ubaldo

Morreu João Ubaldo Ribeiro. Acabo de saber. A notícia chegou numa manhã de sol, com o vento forte anunciando a frente fria.

O Ubaldo é uma das consciências mais livres que conheci. Millôr e ele. Um acadêmico bem-dotadíssimo, frequentador dos botecos de esquina, um erudito de shorts e chinelo de dedo. Exímio contador de causos, era engraçadíssimo — e gravíssimo, quando preciso. Mais que baiano, um baiano da ilha que, avançada no mapa, primeiro defendeu a nossa soberania.

Ubaldo tinha uma inteligência assim, soberana, assombrosa, intimidadora, não fosse o calor com que te olhava, quando ria espremendo os olhos, meio índio, meio preto, meio árabe e português.

“Sou argelino na França, iraquiano na América e turco na Alemanha”, dizia. Chegava com horas de antecedência aos aeroportos, ciente de que enfrentaria a dura. Certa vez, no Charles de Gaulle, em Paris, depois de vencidas as filas de imigração, avistou uma tropa de elite com cães farejadores vindo na sua direção. Ubaldo foi encostado de encontro à parede e teve os fundilhos revistados por um focinho adestrado na frente de crianças e senhoras idosas que esperavam o embarque.

Ele oscilava entre a candura máxima e o rigor extremo. A severidade era herança da criação que recebeu em casa. “Meu pai era obsedado por mim”, me disse ele numa entrevista. Aprendeu a ler com cinco anos, dado o desespero do patriarca por ter um filho analfabeto. Abriu Dom Quixote e, em uma tarde, tornou-se íntimo das sílabas. Apanhou mais de uma vez por não saber a lição e cursou direito obrigado. Preferia filosofia, fetiche das garotas prafrentex dos 60.

Ubaldo era quente, galante, feio e irresistível.

O ensaio geral d’A casa dos budas ditosos foi um corridão melancólico, com ele, e só ele, na plateia. Saí certa do fracasso. Três dias depois, na estreia em São Paulo, o embaraço não se repetiu. O público respondeu furioso e as confissões de alcova se transformaram num fenômeno que me acompanha há mais de uma década.

Cada vez que narro a pornopopeia, me surpreendo com o ritmo da partitura, com as pausas, os apartes, as conclusões, o humor delirante, a delicadeza, o lirismo e a redenção do texto. É como estar com o Ubaldo de novo; e quem esteve sabe do poder encantatório, dos volteios de raciocínio, das cortadas ágeis e do falar pausado, quase anedótico, do monstro de Itaparica.

Passamos juntos um fim de semana a dois, em Salvador, quando a peça foi apresentada no Teatro Castro Alves. Paula e Caetano cederam a casa no Rio Vermelho e viramos as madrugadas conversando sobre o que a baiana do livro tinha dele.

Em Salvador, as chamadas de lançamento anunciavam uma comédia de João Ubaldo Ribeiro. Depois da primeira sessão, de volta no camarim, vi que algo o incomodava. Ele me chamou de lado, fazia tempo não via o espetáculo, e, com muito tato, disse que eu havia perdido a humanidade, que estava buscando o riso. Por fim, pediu que parássemos de nos referir ao texto como comédia.

A cobiça e a mecânica da repetição traíram a grandeza do homem. Nunca mais fui chula, nunca mais.

Se algo me ajudou a desenvolver a escrita, foi ter redatilografado A casa dos budas ditosos como exercício de memorização, durante os ensaios da peça. O treino revelou a gramática, a música que emana dele, e me abriu as letras. Com o tempo, perdi o medo de lhe escrever e-mails, coisa que, no início, se reduzia a magras interjeições.

O Ubaldo é sujeito oculto dos sete anos desta edição.

Mestre da era digital, dominava a web e mandava recados vez por outra. Guardo alguns gravados, naquela voz incrível que o pai proibiu que servisse ao canto. Um mês atrás, precisei de um amigo. Coisa rara, pedi um encontro. Ele me recebeu em casa, num domingo chuvoso, e conversamos longamente, como havíamos feito uma vez, na casa do Rio Vermelho.

Eu não sabia, mas era a despedida.

O Ubaldo é o tronco do ipê, como Caymmi e Glauber. Um desses espantos made in Bahia. Sem ele, o mundo perde muito da graça e do sentido.

Julho de 2014

Fernanda Torres, crônica “Ubaldo” do livro “Sete Anos”. São Paulo, Companhia das Letras, 2014

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