Nada mais atormentador do que o embate entre espiritualidade e o Deus-carrasco das religiões.

Qual caminho seguir? O que é exatamente espiritualidade? É preciso ter uma religião para ser espiritualizado? Com certeza, não.

Segundo Alberto Caeiro, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa, pensar em Deus é desobedecer a Deus. Se Deus quisesse que pensássemos nele, ele apareceria a nossa frente e diria: “Estou aqui!” 

Neste texto, Rubem Alves nos diz que a espiritualidade pode ser encontrada em diversos lugares, até mesmo numa cebola cortada, basta ver com o coração.

Curtam esta oportunidade para refletir sobre suas crenças, a beleza e a eternidade. Boa leitura!

Vaga-lumes

VOCÊ ME FEZ UM PEDIDO ESTRANHO: que eu escrevesse sobre vaga-lumes. Os outros, lendo assim sobre o seu pedido, poderiam concluir que você é um louco. Vaga-lumes? Preciso, então, para protegê-lo, transcrever alguns trechos da sua carta, para que os leitores não só entendam o que você disse, mas que passem a amá-lo, mesmo sem conhecê-lo, como é o meu caso.

Você começa dizendo que não gostava de ler e que invejava as pessoas que tinham esse hábito. Foi então que sua irmã lhe emprestou um livro que escrevi, Navegando, que dediquei a um amigo muito querido que nos abandonou, vivendo agora num lugar por enquanto a mim inacessível, iluminado por vaga-lumes, o Elias Abrão.

Tenho saudades dele. Depois da sua carta, sempre que vir um vaga-lume, eu me lembrarei dele. Aí você me deu grande alegria, dizendo que foi só começar o Navegando para que você descobrisse que ler é igualzinho a navegar por mares desconhecidos…

Depois você diz que as ideias do Deus das religiões sempre o atormentaram, juiz-carrasco. Esse Deus estava em desarmonia com o seu coração. Seu coração queria beleza, e o Deus das religiões não se importava com ela. Lendo minhas coisas, você descobriu um Deus que mostra seu rosto nas coisas belas.

Diz o Alberto Caeiro que pensar em Deus é desobedecer a Deus. Se Deus quisesse que pensássemos nele, ele apareceria a nossa frente e diria: “Estou aqui!” Mas isso nunca aconteceu.

A eternidade se revela refletida no rio do tempo. William Blake falava em “ver a eternidade num grão de areia…” Já tive uma paciente que achou que estava ficando louca porque viu a eternidade numa cebola cortada!

Cebolas, ela já as havia cortado centena de vezes para cozinhar. Para ela, cebolas eram comestíveis. Mas num dia como qualquer outro, ao olhar para a cebola que ela acabara de cortar, ela não viu a cebola: viu um vitral de catedral, milhares de minúsculos vidros brancos, estruturados em círculos concêntricos, onde a luz se refletia.

Eu a tranquilizei. Não estava louca. Estava poeta. Neruda escreveu sobre a cebola: “rosa de água com escamas de cristal…”

Você viu o cacho de vaga-lumes e ficou pasmo. No meio da confusão da vida, uma revelação do eterno! Como era possível que houvesse coisa tão linda, tão silenciosa, tão escondida — que os olhos dos comuns dos mortais não viam?

Então você confessa a razão por que os seus olhos viram, no cacho de vaga-lumes, o brilho da eternidade: você é soropositivo.

Ah! Ser soropositivo é ter sido tocado pelo toque da morte. Falou-se em Aids, falou-se em morte. (Mas não teremos todos nós sido tocados pelo toque da morte — só que não nos demos conta disso?)

Assim, mergulhados na confusão da vida, nossos olhos não veem a eternidade. A consciência da morte opera transformações no olhar. Quem tem a morte como companheira vê coisas que ninguém mais vê. E você ficou agradecido pelo gentil toque da morte…

Falei com um amigo sobre seu e-mail. Ele, exegeta do Novo Testamento, sorriu e disse: Sabe? No texto do Novo Testamento que descreve o nascimento do Menino Jesus está dito que os céus repentinamente foram cheios com a glória de Deus.

E o verbo usado é “perilampein”. “Lampein” é brilhar. Dele se deriva “lâmpada”. E “peri” quer dizer “em volta”: um brilho que ilumina tudo ao redor.

É desse verbo que deriva “pirilampo”… Pirilampo é vaga-lume. Você pode imaginar que as estrelas, repentinamente, apareceram como milhões de vaga-lumes — e a luz era tão bela que aqueles que a viram sentiram que ali estava presente a beleza divina.

Quem vê a beleza divina num cacho de vaga-lumes com certeza viu a glória de Deus. Sempre que eu vir um vaga-lume, eu me lembrarei de você. Que os pirilampos o abençoem.

Rubem Alves, crônica “Vaga-lumes” do livro “A grande arte de ser feliz”. Rio de Janeiro: Editora Planeta, 2014

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Revista Ecos da Paz
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