Quantas vezes nos deixamos levar pela nossa soberba? Achar-se superior porque temos isto ou aquilo.

Termos graduações é importante, mas muito mais que mestrados e PhDs, é termos sabedoria de olharmos o outro com respeito. Além disso, de nada adianta a erudição se em momentos de crise você não souber agir. Aproveite a leitura.

Há uma história da Índia antiga que me relataram. É assim: certa feita, um jovem de um povoado pequeno retornava à casa de seus pais. Havia passado anos fora, estudando.

Formara-se com louvor na universidade e, como um bichinho, caminhava de peito e nariz erguido. Para chegar ao seu vilarejo, precisava atravessar um grande rio. Contratou os serviços de um senhor que tinha uma balsa.

Atravessavam o rio quando houve uma linda revoada de pássaros. O jovem perguntou ao remador idoso: “O senhor sabe por que os pássaros voam? Qual a estrutura mecânica que lhes permite voar?”. “Não sei. Sei apenas que voam.” E o jovem retrucou: “Mas como o senhor é tolo. Perdeu um terço de sua vida sem esse conhecimento”.

Remando por mais algum tempo, viram passar sob a jangada um cardume de peixes brilhantes e rápidos. O jovem interpelou o remador idoso: “O senhor sabe por que os peixes nadam, não sabe?”. E o remador se desculpou dizendo: “Sou idoso e nunca saí deste barco. Sei apenas que os peixes nadam e nada mais”. “Que lástima!”, exclamou o jovem. “Sem estudos, sem conhecimento, é como se o senhor houvesse perdido metade de sua vida.”

O remador idoso se calou e continuou remando. Depois de algum tempo, a água subiu e ameaçava afundar a jangada. O remador perguntou ao jovem: “Sabe nadar?”. E o jovem, assustado, respondeu: “Não, não sei, por isso o contratei”. “Pois o senhor acaba de perder toda a sua vida.”

A história nos fala da tolice do orgulho. Quando aprendemos um pouco e achamos que sabemos muito. O desrespeito que algumas pessoas podem vir a demonstrar por outras que não estudaram. No entanto, a sabedoria está além dos estudos acadêmicos. A sabedoria da vida e da morte.

Também nos faz pensar sobre a compaixão do remador. Mesmo tendo sido humilhado e rebaixado pelo jovem, teria ele deixado o tolo se afogar e nadado para a margem sozinho? Ou teria tentado ajudá-lo? Haveria ajuda possível?

Houve quem tivesse de deixar sua amada morrer num acidente no mar. Foram necessários anos de terapia para se recuperar da culpa. Um senhor me contou que, em certa ocasião, seu barco estava afundando e ele estava com sua mãe, sua esposa e seu filho. Só poderia salvar uma pessoa. Quem você salvaria?

Ficamos todos pensando em soluções. Salvaria o filho, um bebê? Salvaria a esposa, seu amor? Salvaria a mãe idosa? Depois de momentos de suspense, ele nos disse: “Salvei minha mãe. Esposa, eu poderia encontrar outra. Filhos, eu poderia ter outros. Mãe não é substituível”.

Isso o libertou da culpa pela morte dos outros dois? Até hoje reflito sobre sua opção. Teria sido a minha? Jamais saberei. Apenas quando estamos em uma situação-limite podemos ir além de nosso limite.

No filme indiano As aventuras de Pi, um jovem sobrevive a um naufrágio e se vê preso a um pequeno barco e a um tigre feroz. Afinal, o tigre feroz seria ele mesmo? Que aspecto de nós é a fera que deve ser domesticada, amansada, cuidada e amada? Que aspectos de si mesmo você está alimentando?

Podemos cultivar a compaixão e a ternura. Podemos cultivar o cuidado e a brandura. Podemos cultivar o rancor e a vingança. Qual a sua escolha?

Se eu fosse o velho remador, diria: “Vamos, então, usar sabedoria e desprendimento. Você terá de aprender a boiar e eu vou puxá-lo até a margem. Não se exaspere. Lembre-se dos pássaros voando e dos peixes nadando. Todos estão em seu elemento. Mantenha a cabeça na superfície da água e o levarei à margem”.

“Por mais que o peixe nade, nunca deixa as águas. Por mais que o pássaro voe, nunca termina o céu.” (Mestre Eihei Dôgen, século XIII)

Qual é o seu limite? Podemos nos tornar seres ilimitados? Aumentamos nossos limites através da prática incessante do Caminho Iluminado?

A escolha é de cada pessoa. Podemos alimentar a sabedoria verdadeira e a compaixão ilimitada. Mas é preciso treino e paciência. A prática e o treino da paciência se dão somente através da prática e do treino da paciência.

Monja Coen, “Erudição e sabedoria”, do livro “A sabedoria da transformação”, Editora Planeta, São Paulo, 2014

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