De acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, entre 2015/2016 foram registrados 804 mil óbitos por ano no mundo causados por suicídio, sendo 2.200 por dia. No Brasil, 32 óbitos por dia, o que coloca o país em oitavo lugar no ranking mundial, em números absolutos.

Em 2006, o Ministério da Saúde lançou a Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio, trabalho este pioneiro no âmbito público e que permitiu a formalização de uma política que hoje é referencia aqui e reconhecida pela OMS, entre os 28 países que possuem uma proposta formal de intervenção.

Ainda segundo a OMS, por ano, são realizados 16 milhões de tentativas de suicídio no mundo. E segundo a Agência Brasil, entre 2011 e 2016, observou-se aumento dos casos notificados de lesão autoprovocada nos sexos feminino e masculino de 209,5% e 194,7%, respectivamente. É um tema que ao longo dos anos está deixando de ser tabu e de demonstração de fraqueza para entrar no rol das doenças do século 21 assim como a depressão e os transtornos de ansiedade.

André Trigueiro, jornalista ambiental e um estudioso do assunto, destaca em suas palestras a depressão como um dos principais fatores de risco que contribuem para o ato suicida. Além da dependência das drogas, inclusive as lícitas.

“A sociedade vive a ditadura da alegria constante. É feio sofrer. Isso explica muitos casos de depressão. O suicídio pode ser uma saída para uma pessoa que esteja vivendo em estado de sofrimento. Por isso, é preciso procurar ajuda especializada, para buscar o tratamento correto. O suicida não quer se matar, ele quer resolver um problema, ele quer acabar com a dor. Não podemos esquecer, também, as drogas lícitas e ilícitas, que provocam dependência. Não é por acaso que o Brasil é o país com maior número de farmácias por metro quadrado no mundo”, conclui.

Um ritual que vai deixando pistas

Violência, crise financeira, desemprego, depressão, relações tóxicas são alguns dos ingredientes para o suicídio, que é visto como covardia da pessoa e fracasso da família que não conseguiu impedir o ato.

Convenientemente, deixou de ser uma questão da sociedade para ser um problema de uma pessoa ou família com um tipo de desajuste. Ou então é colocado na conta de uma patologia mental. Não que doenças mentais não levem ao suicídio, contudo a questão é mais complexa.

Não existe uma “receita” única para detectar se uma pessoa é ou não um suicida em potencial, mas a pessoa que está sofrendo pode dar certos sinais, que devem chamar a atenção de seus familiares e amigos próximos, sobretudo se muitos desses sinais se manifestam ao mesmo tempo.

Geralmente o padrão se manifesta da seguinte forma:

O aparecimento ou agravamento de problemas de conduta ou de manifestações verbais durante pelo menos duas semanas.

Essas manifestações não devem ser interpretadas como ameaças nem como chantagens emocionais, mas sim como avisos de alerta para um risco real.

Preocupação com sua própria morte ou falta de esperança.

As pessoas sob risco de suicídio costumam falar sobre morte e suicídio mais do que o comum, confessam se sentir sem esperanças, culpadas, com falta de autoestima e têm visão negativa de sua vida e futuro. Essas ideias podem estar expressas de forma escrita, verbal ou por meio de desenhos

Expressão de ideias ou de intenções suicidas.

Não ignorem frases como: “Vou desaparecer.” “Vou deixar vocês em paz.”
“Eu queria poder dormir e nunca mais acordar.” “É inútil tentar fazer algo para mudar, eu só quero me matar.”

Isolamento

As pessoas com pensamentos suicidas podem se isolar, não atendendo a telefonemas, interagindo menos nas redes sociais, ficando em casa ou fechadas em seus quartos, reduzindo ou cancelando todas as atividades sociais, principalmente aquelas que costumavam e gostavam de fazer.

O papel da imprensa e da internet

“É correto não falar de suicídio na imprensa toda vez que acontece. Sabemos que, dependendo da forma que se aborda, essa informação pode chegar a pessoas fragilizadas psíquica ou emocionalmente como uma sugestão. E essa pessoa pode entender que aquilo também pode vir a ser uma solução para ela.” afirma o jornalista André Trigueiro.

Via de regra, as inevitáveis reportagens sobre suicídio não podem dar destaque ao tema com grandes manchetes, fotos ou descrição dos métodos utilizados. Contudo, o jornalista afirma que não se pode simplesmente ignorar o problema, não falar nada, porque assim a prevenção não existirá. Segundo ele, é necessário abordar as situações que levam alguém se matar, como prevenir, falar dos sintomas. Ter uma postura sem julgamento, sem opiniões. Ouvir a dor do outro se faz necessário neste mundo caótico com tantas desigualdades e sem perspectivas imediatas.

falling 2245869 640 - Em 2018, um suicídio acontecia a cada 46 minutos. Não é um problema pessoal, mas sim de saúde públicaApesar da internet representar muita coisa que os adolescentes curtem, por outro lado, é assustador a relação do suicídio de jovens e a internet. Os adolescentes engordam as estatísticas por conta das notícias falsas e linchamentos virtuais dos quais são alvo, além da crise de identidade, ter que lidar com o corpo em transformação, conquistar seu lugar na família e no mundo.

O suicídio é, hoje, a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil. Entre os homens nesta faixa etária, é o terceiro motivo mais comum; entre as mulheres, o oitavo.

Estatísticas mostram que meninos morrem mais porque eles têm menos habilidade em lidar com o sofrimento emocional causado pela depressão. Eles tendem a ser mais impulsivos, apresentam mais agressividade, estão mais expostos ao uso de álcool e drogas e buscam métodos mais letais. As meninas procuram ajuda mais cedo e com mais frequência.

O suicídio extrapola os limites das grandes cidades, jovens indígenas Guarani-Kaiowá, as novas gerações de um dos povos originários mais massacrados do planeta, se suicidam desde os anos 80. Assim como eles são invisíveis para o homem branco, o suicídio deles também o é. Nos recortes apresentados pelo Ministério da Saúde são 15,2 casos por 100 mil.

De acordo com o Ministério da Saúde, 44,8% dos suicídios indígenas em 2016 ocorreram na faixa etária de 10 a 19 anos. E isto acontece não só no Brasil, também ocorre nas populações indígenas nos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia.

Apesar de ser uma população que cultua a natureza, pratica rituais religiosos, exerce uma espiritualidade, tudo isso não impede destes jovens tirarem suas próprias vidas diante do massacre constante e da falta de perspectivas.

Para os Guarani-Kaiowá, palavra é “palavra que age”. Responder ao suicídio dos adolescentes com vida é romper as barreiras do isolamento e mostrar uma perspectiva de futuro.

Com relação à população urbana, diversas universidades estrangeiras fizeram um estudo relacionando o uso da internet com o aumento do número de suicídio. falling 4352856 640 - Em 2018, um suicídio acontecia a cada 46 minutos. Não é um problema pessoal, mas sim de saúde públicaOs pesquisadores da Universidade de Oxford afirmaram que há relação entre o tempo de uso da internet e comportamento suicida e de autolesão ao vício à essa tecnologia, altos índices de navegação e contato com sites onde havia conteúdo relacionado ao tema.

Na Coreia do Sul, o periódico de medicina e saúde pública analisou as atitudes de estudantes de 7 a 12 anos de acordo com a intensidade do uso de internet. Os que passam muito tempo conectados foram identificados como grupo de risco para problemas variados de saúde, inclusive conduta suicida.

Dentre os usuários intensos, 26,4% relataram ter tido pensamentos suicidas, o dobro dos jovens que navegam ocasionalmente. No grupo dos jovens conectados por mais tempo, o índice de tentativas de suicídio foi de 10%, quatro vezes o registrado nos usuários ocasionais.

Na Universidade de Swansea, no Reino Unido um estudo aponta que as vítimas de “cyberbulling” teriam 2,1 chances de exibir um comportamento suicida e 2,6 vezes mais chances de cometer algum ato no sentido de tirar a própria vida.

O lado positivo da internet

Da mesma forma que a internet estimula as más ações graças ao anonimato, há também iniciativas que ajudam na prevenção do suicídio. Além da informação sobre o assunto, existem fóruns de discussão e tratamentos online.

Na Universidade de Melbourne, na Austrália, os pesquisadores criaram um sistema de monitoramento da depressão e aplicaram-no em pacientes. Em 2014 esta ferramenta foi aprovada como uma alternativa para compreender melhor os sintomas e proporcionar aos pacientes um controle da situação.

A Universidade de Illinois, nos EUA, criou um serviço de apoio às vítimas da depressão. Em um ano de funcionamento o percentual dos entrevistados com pensamentos suicidas baixou de 14,46% para 4,82%

Policiais compõe um outro grupo de risco

Quem deveria nos proteger também está MUITO doente.

O suicídio ronda as corporações, seja na polícia militar, civil ou federal. Homens e mulheres recebem uma formação técnica, mas nenhuma formação psicológica. Os homens em especial carregam o peso da cultura machista de que homem não chora, não sente medo e tem que ser super-herói 24 horas por dia, escondendo o sofrimento e a depressão.

Como se não bastasse a precarização do trabalho do policial, a própria corporação pratica um processo de desumanização sobre eles, afinal são máquinas de guerra. Caso voltem “avariados” do combate nas ruas, eles são afastados sem receber apoio psicológico algum, quase relegados ao esquecimento.

police 378255 640 - Em 2018, um suicídio acontecia a cada 46 minutos. Não é um problema pessoal, mas sim de saúde pública
Há também os casos de processos administrativos por abuso de autoridade, acusação de corrupção, assédio moral que geram um grande sentimento de vergonha e impotência levando à depressão e ao suicídio.

Para se ter uma ideia da falta de humanidade com os seus efetivos, a polícia do estado do Rio de Janeiro conta com cerca de 44,5 mil PMs e um quadro médico com 77 psicólogos. É um profissional de saúde mental para atender 577 policiais que estão na ativa. Se for somar os policiais que estão inativos, o número sobe para 2597 pessoas por psicólogo. Profissionais da área de saúde comparam estes policiais com veteranos de guerra.

Sobrecarga de trabalho, falta de reconhecimento da sociedade e dos seus superiores, traumas por perda de colegas de trabalho e equipamentos precários são as principais reclamações dos policiais nas consultas. Além disso, eles expressam a frustração de não poder seguir carreira da maneira planejada tendo que se reinventar em outras funções. Muitos dos que tentaram se matar acabam fazendo parte de associações que dão apoio psicológico à quem está na ativa.

Em São Paulo a depressão está matando mais policiais que a própria violência. Só em 2018 a polícia paulista afastou 2 policiais por dia por conta de problemas psiquiátricos. E a falta de apoio psicológico também se repete.

CAPS e CVV no combate ao tabu e ao preconceito

“Por que eu vou perder meu tempo com alguém que não está querendo viver?” Esta é uma frase comum proferida por muitos médicos e enfermeiros, apesar do juramento de Hipócrates. O preconceito contra estes doentes é explícito na área da saúde porque estes profissionais não percebem o suicídio como uma doença.

É um tema da esfera da saúde pública, que merece ter políticas públicas consistentes. Estudos do Ministério da Saúde apontaram que o risco de suicídio é reduzido em 14% em municípios com a presença de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). “Ter uma política de saúde mental é um fator de proteção”, declarou a diretora Fátima Marinho da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Neste combate ao suicídio, as escolas também têm um papel fundamental para detectar os sinais. A comunidade escolar deve ser algo bem mais profundo que as relações na sala de aula, demanda esforço contínuo de fazer laços com a família. Em abril deste ano, o governo federal lançou o programa “Acolha a Vida” que tem intensificado as ações relacionadas ao tema na expectativa de alertar famílias, profissionais da educação, da saúde e conselheiros tutelares sobre os sinais que podem indicar tendências à violência auto-provocada.

De acordo com a ministra Damares Alves, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos planeja implementar um observatório estatístico que permita entender o fenômeno da autoviolência e saber onde ocorre com maior intensidade. Segundo a ministra, este projeto de combate ao suicídio e a automutilação deverá alcançar, até o fim de 2020, metade dos municípios brasileiros.

Para se informar sobre os sintomas de uma pessoa com acesse o link da cartilha do ministério da saúde: http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/suicidio

Uma outra entidade é o CVV (Centro de Valorização da Vida) que atua há 57 anos na prevenção ao suicídio. Em 01 de março de 1962 as atividades começaram num pequeno posto na cidade de São Paulo na Rua da Abolição 411 e que funciona até hoje. Esta associação civil sem fins lucrativos trabalha por meio de voluntários e se espalhou por 72 postos no Brasil . Os voluntários são das mais variadas formações e recebem treinamento adequado dando apoio emocional a todas as pessoas que querem e precisam conversar.

Para ser atendido, basta ligar 188 e o atendimento pode ser feito também pela internet 24 horas por dia no link: www.cvv.org.br/quero-conversar/

Com informações de: El País, Agência Púlica, Portal G1 e Ministério da Saúde

 

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