Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes eternizaram com suas palavras um dos momentos mais marcantes da história mundial: a explosão de bombas atômicas, que destruíram as cidades de Hiroshima e Nagasaki decretando o fim da Segunda Guerra Mundial. 

Escrito em 1945, no período pós guerra , o poema “A Bomba” foi publicado no livro “Rosa do Povo”.

Nele, Drummond critica de maneira irônica o uso da bomba para resolver conflitos e o excesso de tecnologia que cerca o homem.

Ao ler este poema, reparem que quase não há pontuação, assim como a humanidade que não pára.

“Rosa de Hiroshima” foi criado em 1946, também no período pós-guerra, e publicado no livro Antologia Poética.

O poema traz uma reflexão sobre as vítimas, que sofreram por décadas. Um ataque que matou mais de 200 mil pessoas e que sequer foi julgado por um tribunal internacional.

Apenas duas bombas que causaram um dos grandes desastres ambientais devastando a vegetação, provocando chuvas ácidas e a contaminação de rios, lagos e plantações.

Em 1973 o poema foi musicado  pelo grupo Secos e Molhados cantado por Ney Matogrosso, se tornando um dos grandes clássicos da MPB.

Boa leitura.

A Bomba

A bomba é uma flor de pânico apavorando os floricultores

A bomba é o produto quintessente de um laboratório falido

A bomba é miséria confederando milhões de misérias

A bomba é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles

A bomba é grotesca de tão metuenda e coça a perna

A bomba dorme no domingo até que os morcegos esvoacem

A bomba não tem preço não tem lunar não tem domicílio

A bomba amanhã promete ser melhorzinha mas esquece

A bomba não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está

A bomba mente e sorri sem dente

A bomba vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados

A bomba é redonda que nem mesa redonda, e quadrada

A bomba tem horas que sente falta de outra para cruzar

A bomba furtou e corrompeu elementos da natureza e mais furtara e corromper

A bomba multiplica-se em ações ao portador e em portadores sem ação

A bomba chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés

A bomba faz week-end na Semana Santa

A bomba brinca bem brincado o carnaval

A bomba tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia

A bomba industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários

A bomba sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborreia 

A bomba não é séria, é conspicuamente tediosa

A bomba envenena as crianças antes que comecem a nascer

A bomba continua a envenená-las no curso da vida

A bomba respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais

A bomba pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba

A bomba é um cisco no olho da vida, e não sai

A bomba é uma inflamação no ventre da primavera

A bomba tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além da comparsaria

A bomba tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.

A bomba não admite que ninguém a acorde sem motivo grave

A bomba quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos

A bomba mata só de pensarem que vem aí para matar

A bomba dobra todas as línguas à sua turva sintaxe

A bomba saboreia a morte com marshmallow

A bomba arrota impostura e prosopopeia política

A bomba cria leopardos no quintal, eventualmente no living

A bomba é podre

A bomba gostaria de ter remorso para justificar-se, mas isso lhe é vedado

A bomba pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo

A bomba declara-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade

A bomba tem um clube fechadíssimo A bomba pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel

A bomba é russamericanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris

A bomba oferece na bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos de paz

A bomba não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas

A bomba desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas

A bomba não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer

A bomba é câncer

A bomba vai à lua, assovia e volta

A bomba reduz neutros a neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia

A bomba está abusando da glória de ser bomba

A bomba não sabe quando, onde e por que vai explodir, mas preliba o instante inefável

A bomba fede

A bomba é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina

A bomba com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve

A bomba não destruirá a vida O homem (tenho esperança) liquidará a bomba.

A Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A antirrosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.

A seguir, Ney Matogrosso no grupo Secos e Molhados num show no Maracanazinho.

 

Fonte: Livro “Carlos Drummond de Andrade Nova Reunião 23 Livros de Poesia”, Companhia das Letras, São Paulo, 2009, Livro “Vinícius de Moraes Antologia Poética”, Editora A Noite, Rio de Janeiro, 1954

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