Neste conto, Monja Coen nos convida a refletir sobre os pré-julgamentos que fazemos de terceiros e como perdemos a oportunidade de aprender quando tentamos impor nosso ponto de vista.

A mestra Aoyama Roshi estava de pé, na porta do Shoin (edificação nobre, destinada ao uso de convidados especiais), despedindo-se do mestre Zengetsu Suigan, que viera dirigir um retiro zen.

Ao seu lado, a monja noviça também se despedia do mestre. Aoyama Roshi disse a ela:
— Você precisa derreter o gelo.
— A senhora derreteria o meu gelo? — perguntou a monja petulante.
E a abadessa respondeu:
— Apenas os ensinamentos de Buda podem derreter o seu gelo.
A noviça compreendeu a mestra anos depois.

A noviça desse caso era eu. Durante oito anos, fiquei em internato e semi-internato no Mosteiro Feminino de Nagoya.

Nossa superiora, Shundo Aoyama Roshi, me recebeu, quando cheguei, no Shoin. Não por eu ser importante, mas por não haver outro local para que eu me trocasse e me preparasse para a entrada oficial no mosteiro.

Nesse dia, ela me advertiu:
— No mosteiro, não são todas as mestras iluminadas. Somos pessoas que nos disponibilizamos a praticar os ensinamentos de Buda. Como pedras colocadas dentro de um recipiente, a prática diária nos faz esbarrar umas nas outras. Quem ficar arredondada primeiro não será ferida nem machucará ninguém. Seja bem-vinda.

Eu me julgava redonda e macia. Que ilusão. Em poucos meses, percebi minhas pontas e o esbarrar constante. Não apenas nas outras noviças, mas principalmente na nossa superiora. Comparava-a com Maezumi Roshi, meu mestre de ordenação em Los Angeles.

Criticava o modo como era conduzida a prática no mosteiro e até mesmo a maneira como era feita a leitura dos nomes dos Budas Ancestrais — diferente do que aprendera em Los Angeles.

Quando Yogo Suigan Roshi vinha, de tempos em tempos, liderar um retiro, eu me alegrava. Ele falava inglês (com o sotaque típico dos japoneses), mas me entendia e eu o entendia. Assim, estar com ele aliviava um pouco a tensão constante do esbarrar diário.

O diálogo na porta do Shoin aconteceu numa das últimas vindas do mestre ao nosso pequenino mosteiro feminino. Eu já era sua discípula transmitida. Havia sido aceita como uma de suas sucessoras e já podia usar o manto amarelo-alaranjado das monjas transmitidas. Entretanto, Aoyama Roshi preferia que no mosteiro eu mantivesse o manto negro.

Meu relacionamento com ela não havia progredido muito. Pressentindo minha frieza, disse:
— Derreta o gelo.
Minha dureza era a de querer modificar as práticas no mosteiro, de querer seguir regras medievais que havia lido em livros antigos.
E nossa superiora sempre me dizia:
— Seja como a água, seja macia, sorria.

Hoje posso imaginar as caras que eu deveria fazer e o comportamento desrespeitoso que mantive. Como resultado desse carma prejudicial, hoje tenho discípulas e discípulos que me fazem sentir o que Aoyama Roshi deve ter sentido. É a vida, é o Darma, é o Carma.

Pois, ainda petulante e convencida de mim mesma, soltei o último desafio:
— Então, que a senhora derreta o meu gelo.

Ora, há anos ela tentava, de todas as maneiras, me mostrar o Caminho de Buda, a alegria da vida monástica, o treinamento no mosteiro feminino, que não permitia escapadas ou bebedeiras como em alguns mosteiros japoneses ou em centros de prática fora do Japão.

Nossa prática era a de criar uma disciplina possível de ser seguida a vida inteira, em qualquer templo ou centro de práticas zen. Mais valor dava nossa superiora ao coração sensível às necessidades alheias do que ao coração preocupado apenas com regras frias ou consigo mesmo.

Assim, quando ela me disse: “Os ensinamentos de Buda podem descongelar você, não eu”, comecei a refletir sobre o papel de uma superiora. Não, a líder não é superpoderosa nem capaz de modificar todas as pessoas. Ela é o exemplo vivo, o Darma palpitante.
Aoyama Roshi era sempre a última a se deitar e a primeira a se levantar. Passava os dias escrevendo, atendendo pessoas, fazendo palestras, dando aulas, fazendo zazen, oficiando liturgias. Incansável. Sem jamais reclamar.

E eu, recém-formada monja, já me considerando hábil a discernir como deveria ser a vida em um mosteiro. Que arrogante.

Hoje, quando oriento um pequenino templo no bairro do Pacaembu, em São Paulo, além de outros centros de prática pelo Brasil, compreendo a frase:“Não sou eu que derreto o gelo. São os ensinamentos de Buda”.

Tudo que posso fazer é transmitir os ensinamentos e orar para que as pessoas sejam capazes de ouvi-los, entendê-los e praticá-los.

Monja Coen, do livro “108 contos e parábolas orientais”, São Paulo, Editora Planeta, 2015

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