Formado pela Universidade de Cambridge e professor da Universidade da Cidade de Nova York, David Harvey é um dos principais nomes da Geografia Humana contemporânea. De orientação marxista, Harvey recebeu em 1995 o Prêmio Vautrin Lud, o Nobel da Geografia.
Harvey começou a destacar-se no cenário intelectual geográfico já nos anos 1960, com a publicação da obra “Explanation In Geography”, na qual adotava um discurso mais próximo à Geografia Quantitativa, que na época estava em voga . Posteriormente, o autor inclinou-se para os estudos urbanos, adotando uma postura marxista mais condizente com a corrente de pensamento, que passou a dominar o pensamento geográfico a partir dos anos 1970, a Geografia Crítica.

Dentre suas obras mais famosas e difundidas, destacam-se: A Justiça Social e a Cidade, Condição Pós-Moderna, Espaços de Esperança e A Produção Capitalista do Espaço.
Seu trabalho aponta o espaço como um conjunto de processos sociais e formas espaciais, um dos seus objetivos em todo o percurso intelectual foi o de compreender o funcionamento e a dinâmica espacial do sistema capitalista e sua função nas relações sociais contemporâneas.

Influenciado pelos pensamentos de Karl Marx e Henri Lefebvre, David Harvey constituiu uma Geografia Urbana e Econômica de contestação ao pensamento neoliberal e ao sistema capitalista como um todo, buscando expressar e denunciar a forma com que as contradições sociais manifestam-se no espaço geográfico.

A loucura da razão econômica

Em sua obra mais recente: ” A loucura da razão econômica: Marx e a economia do século XXI”, Harvey defende a redução drástica da influência do mercado na sociedade. Segundo ele, acreditar que o livre mercado é capaz de oferecer moradia acessível é se iludir porque isto não acontece.

A maioria dos economistas não gosta das contradições do capital apontadas por Karl Marx, em que dizia que o capital é uma forma política-econômica contraditória, pois promete liberdade, mas te faz escravo do dinheiro, promete o crescimento econômico mas entrega crise e destruição. Para Harvey não há como resolver a loucura racional da economia dentro do próprio capitalismo por conta desta contradição.

Um dos seus exemplos é os EUA cuja democracia é controlada pelo dinheiro. De acordo com a Suprema Corte americana o financiamento privado de campanhas eleitorais é liberdade de expressão. Para Harvey, isso significa que milionários podem comprar eleições. Ele cita o escritor Mark Twain (1835-1910) que dizia: “os EUA têm o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar”.

800px David Harvey2 - David Harvey diz: "As cidades não são construídas para as pessoas morarem, mas sim como investimentos"“É o dinheiro quem controla o processo democrático, não as pessoas. Atualmente, vemos cada vez mais o dinheiro apoiando o autoritarismo, que esvazia as democracias parlamentares e concentra todo o poder no Executivo.”- afirma.
Seguindo seu raciocínio o neoliberalismo transformou tudo em mercadoria até mesmo o conhecimento. Para ele os limites do mercado são extendidos cada vez mais, e grande parte da população não têm recursos, não pode comprar educação, moradia digna, crédito, nada. “Precisamos desmercadorizar a saúde, a educação, a moradia popular e a cesta básica. Uma sociedade decente garantiria saúde gratuita para todos. Moradia popular não pode ser uma mercadoria. Estamos falando de uma plataforma anticapitalista, o que, obviamente, não significa que vamos romper com a economia capitalista amanhã. É um processo de desmercadorização.”- afirma

Cidades rebeldes

Ele cita alguns exemplos como a cidade de Hamburgo na Alemanha. O bairro St. Pauli era cheio de ocupações de prédios abandonados, em geral feitas por jovens e imigrantes. Os habitantes do bairro criaram um ambiente único, muito diverso. Múltiplas etnias, classes, uma vida urbana muito intensa. O setor imobiliário é muito presente em Hamburgo e havia transformado a cidade em algo muito homogêneo. Ao descobrirem esse bairro estão tentando apropriar-se dele, comprando casas e alugando-as por um preço diferenciado. David pergunta: “por que não é interessante viver nesse bairro vibrante? Esse tipo de coisa você vê nas cidades a toda hora: as pessoas criam um bairro único, ele se torna burguês e entediante.”

Um outro exemplo que ele usa é o movimento Occupy Wall Street que desencadeou em Nova York uma resposta policial muito violenta e realmente exagerada. “Basta você tentar participar de uma marcha, ou manifestação semelhante, para que haja 5 mil policiais em seu redor e são bem agressivos. Enquanto que torcedores de futebol americano tomam as ruas e esta mesma polícia nada faz, pois a população está comemorando.” – afirma

Para ele, Wall Street se enerva com o significado político do “Occupy”, teme que vire moda. ” O pessoal de Wall Street sabe o que fez, sabe que tem responsabilidade e que pode acabar preso. Penso que dizem ao prefeito e a todas as demais autoridades: “acabe com esse movimento antes que vá longe demais”. Isole-o, faça com que pareça muito violento. Então você acaba com esse tipo de resposta política.”

Na América Latina, Harvey cita as fábricas na Argentina que foram tomadas pelos trabalhadores entre 2001-2002. Uma das dificuldades que surgiriam desse movimento e das associações de trabalhadores envolvidas é que continuaram imersas num sistema capitalista, envolvidas na competição e, em consequência, em práticas de auto-exploração. Contudo quando elas foram tomadas, não permaneceram simplesmente como fábricas. Tornaram-se centros comunitários, integraram realmente os bairros próximos, tinham programas educacionais e culturais. Quando os donos voltaram, uns cinco anos depois, e disseram “queremos nossa fábrica de volta ou levaremos as máquinas”, a população saiu de suas casas para impedi-los.

Aqui no Brasil, Harvey destaca as cidades de Porto Alegre (RS) e Curitiba (PR), a primeira pela implementação do orçamento participativo em que os habitantes decidem de forma direta a aplicação dos recursos em obras e serviços que serão executados pela administração municipal. Harvey não vê esta medida como revolucionária, apenas uma medida transformadora que aprofunda a democracia urbana.

Já em Curitiba ele destaca como a cidade construiu um sistema de transporte de maneira ecológica e sofisticada. Ele considera esta cidade um exemplo da sua “teoria dos cupins” em que é possível corroer por dentro uma estrutura capitalista, sem alarde, até que ela entre em colapso para transformação social. Esta cidade agora tem uma estrutura institucional diferente, e você começa a ver tais mudanças como algo que se espalha pela rede urbana.

Com informações do site Outras Palavras e Revista Época.

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