Os sentimentos negativos e pessoas amargas estão sempre nos rondando. É opção nossa aceitá-las ou não. Não entrar na vibração do outro é um dos maiores presentes que podemos dar a nós mesmos, por mais difícil que possa parecer, é um caminho que nos levará à transformação.

Neste texto, Monja Coen faz um passeio pelas citações de Gandhi, dos índios americanos e de Dom Helder Câmara que nos falam de empatia e mudança.

Transformar-se para transformar

“Devemos ser a transformação que queremos no mundo.”

Essa frase de Mahatma Gandhi tem sido um guia para mim, por muitos anos. Tem sido usada até para melhorar o trânsito em São Paulo recentemente. Ela serve para inúmeros aspectos de nossa vida. Como queremos viver depende de como vivemos. Temos de ser essa mudança.

Nem sempre é fácil. Temos hábitos de comportamento, de fala, de pensamento. Quebrar um hábito é difícil, requer plena atenção.

Por exemplo, tenho rugas na testa. Se eu decidir que não as quero mais fundas, vou ter de fazer grande esforço para modificar a maneira como utilizo a musculatura da face. Há tantos anos faço esses movimentos que, para os modificar, terei de usar algum meio expediente.

Posso colocar uma fita adesiva, que, impedindo o movimento, me ajude. Posso aplicar botox – o que seria uma atitude extrema. Posso desenvolver minha atenção e modificar meus hábitos. Isso é importante.

Quando as pessoas chegam até mim e dizem: “Eu sou assim”, já estão apresentando um problema quase insolúvel. Congeladas numa ideia de si mesmas, são incapazes de trabalhar para que haja qualquer alteração em comportamentos seus que podem não estar dando certo.

“Eu sou assim mesmo, falo o que penso e pronto. Sou verdadeira.” Essa senhora estava muito só. Sim, ela falava sem se preocupar se as outras pessoas se magoavam ou não. Reunia amigos e familiares em sua casa, mas sempre tinha uma palavra rude, um comentário ácido e espinhoso. Aos poucos, as pessoas deixaram de aceitar seus convites. E ela foi ficando só.

Veio me procurar para se lamentar do mundo, das pessoas, das irmãs, dos genros, das filhas. Todos estavam errados, todos tinham defeitos graves. Ela não conseguia ver a si mesma. Não conseguia ser macia e gentil. As causas e condições de sua vida, vários sofrimentos que atravessara desde a infância, a tornaram assim, seca e áspera.

Mas, sob essa capa de proteção, havia a menina abandonada, carente. Havia tantas perdas de sonhos e de pessoas. Diferentemente de quem se fecha na tristeza do luto, ela se fechava nas flechadas que lançava a todos à sua volta.

Lembrei-me de minha mestra no mosteiro de Nagoia. Com 2 anos de idade, fora entregue à sua tia monja. Trabalhava muito no templo. Estudava. Tornou-se uma pessoa doce e amorosa. Passara por grandes dificuldades e sofrimentos, incluindo a Segunda Guerra Mundial. Fome, miséria, mortes, doenças. Mas a vida a tornou macia e quente. A outra senhora, no entanto… Como ajudá-la? Seria capaz de me ouvir?

Certa feita, uma senhora ilustre foi pedir auxílio ao monge do templo de sua família. Ficou mais de uma hora apenas reclamando da nora. Esta era inadequada em todos os aspectos, segundo a sogra. O monge ouviu até que ela se cansasse de falar e, no final, apenas disse: “Lembre-se de que um dia a senhora também foi nora”.

Passados alguns dias, a nora veio ao templo. Assim como a sogra, ficou mais de uma hora reclamando da outra. Que não a compreendia, que exigia demais, que tudo o que ela fazia estava errado. Falou e falou. Quando terminou, o monge apenas disse: “Um dia você também será sogra”

Os índios americanos costumam dizer: “Viva um dia em meus mocassins”. Se pudermos compreender as dificuldades e sofrimentos pelos quais as pessoas passam, se pudermos conhecer os cinzéis que vão desenhando comportamentos e atitudes, seremos capazes de acolher toda e qualquer pessoa em nosso coração. E a transformação estará no nosso comportamento e atitude.

Se quero a rua limpa, não vou sujar e vou limpar; não só a minha calçada, mas posso estender para a da vizinha que nunca a limpa. Em vez de reclamar dela – “preguiçosa, suja” –, posso ajudar. “Ah, mas com isso vai ser pior. Ela nunca vai fazer nada mesmo.” Pode ser que sim, pode ser que não. Claro que não temos tempo de varrer a cidade toda. Mas podemos começar. Ser o exemplo. Manter alto o nível de energia vital.

Há pouco tempo, assisti ao filme sobre a vida de Nelson Mandela. Fiquei admirada. Principalmente ao notar que ele se recusava à violência, depois de ter ficado tantos anos preso. Na cadeia, exercitou-se física, mental, moralmente. Saiu um ser humano melhor. Tornou-se presidente do país. Sabia negociar. Terminou com a discriminação racial. Abriu portais de comunicação entre povos. Tornou-se a transformação que queria no mundo.

Mahatma Gandhi vivia de forma simples, usava um tear para fazer suas roupas. Dizem que certa vez estava em um encontro com grandes políticos, decidindo sobre o futuro da Índia. Em meio a uma conversa calorosa, pediu licença e foi ordenhar suas cabras. A necessidade delas era premente e seu coração estava atento.

Da mesma maneira, Dom Hélder Câmara, em meio a uma reunião com políticos, notou que alguém batera à porta da sacristia. Era uma mulher conhecida por vender o corpo. Ficou horas conversando com ela. Quando voltou, os políticos estavam bravos. Ele apenas disse: “Ela precisava falar, sofria”.

Tanto no Japão antigo e moderno quanto no Brasil, há muitas e muitas histórias de bondade e compaixão. Um ladrão entrou num templo e roubou todas as imagens e objetos de valor. Quando foi preso, o monge disse: “Eu dei a ele, não foi roubo”. O ladrão, recebendo esse gesto de acolhida, tornou-se um homem bom.

Na casa de Dom Hélder, entrou um ladrão uma noite. Ouvindo barulhos na cozinha, ele desceu. “Ah, você, como eu, tem fome no meio da noite. Vamos comer juntos?” O ladrão ficou assustado. Dom Hélder preparou alguns ovos com pão e comeram em silêncio. Antes de o homem ir embora, Dom Hélder encheu duas sacolas com comida e, conduzindo-o até a porta, disse: “Seja sempre bem-vindo”.

Ryôkan-sama, monge japonês do século XVII, morava numa casinha de montanha. Vivia em grande pobreza. Certa noite, acordou com a presença de um ladrão. Este estava atordoado, pois não havia o que roubar. O monge entregou a ele sua coberta. Sentou-se na varanda a observar a lua e disse: “Se pudesse, eu te daria o brilho do luar”.

Ser a transformação que queremos no mundo pode começar com uma pose, uma imitação. Algumas pessoas ficam apenas na superficialidade da cópia. Outras são capazes de incorporar as atitudes em sua vida.

Que tenhamos a capacidade de nos tornar a transformação que queremos no mundo.

Monja Coen, “Transformar-se para transformar”, do livro “A sabedoria da transformação”, Editora Planeta, São Paulo, 2014

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