É preciso nos desafiarmos. Ultrapassar certos limites e provar para nós mesmos que somos fortes e podemos conseguir o que queremos.

Nesta crônica, John Grogan relata sua experiência de mochileiro na adolescência e descobre um mundo diferente dos esteriótipos  aos quais esteve acostumado. Boa leitura.

O verão de 1977, minha pobre mãe quase teve um ataque cardíaco quando anunciei que pretendia sair andando com uma mochila pela Nova Inglaterra.

— Sozinho? — mamãe perguntou. — Ah, não! Você não pode.

— Mãe — eu respondi com aquele tom desta-vez-eu-vou-fazer-o-que-eu-quero. — Eu vou.

Ela começou a reclamar, mas meu pai atraiu sua atenção com os olhos. Ele não disse uma palavra, mas seu rosto dizia tudo. Eu sei que ele é seu bebê. Eu sei que você e preocupa. Mas ele não é mais uma criança. Você precisa soltá-lo.

Meu pai sabia o que ia no meu coração. Ele sabia que às vezes um sujeito precisa ir atrás de aventuras para se encontrar.

Eu tinha terminado o segundo ano da faculdade e em poucas semanas começaria meu emprego de verão. Eu já tinha viajado com amigos antes. Quem poderia saber o que eu estava tentando provar, mas daquela vez precisava sair sozinho. Quando meu pai tinha 20 anos, sustentava uma mãe viúva e dois irmãos mais novos enquanto fazia a faculdade.

Não muito tempo depois, estava em um porta-aviões no sul do Pacífico. Ele não precisara de uma viagem solo para provar o que quer que fosse. Mas parecia entender que eu precisava.

— Bem, está bem, então — disse minha mãe, finalmente. — Mas é bom telefonar.

Fizemos um acordo. Eu telefonaria dia sim dia não, e mamãe guardaria suas preocupações para si mesma.

Eu saí levando tudo de que precisava na mochila. Após minha primeira noite fora de casa, entretanto, estava disposto a entregar os pontos e voltar mancando para casa.

Eu tinha conseguido carona até o início da Trilha dos Apalaches, na região oeste do estado de Massachusetts. A noite se aproximava rapidamente, e caminhei apenas alguns quilômetros antes de assentar acampamento. Em vez de montar minha barraca, decidi dormir sob as estrelas. Quando a noite me envolveu, os coiotes começaram a uivar por toda a parte. Juro que até conseguia ouvi-los caminhando no meio dos arbustos.

Então começou a chover. Eu me cobri com uma lona e imaginei que conseguiria ficar seco. Algum tempo depois, acordei de repente com a água cobrindo a lona. Eu estava encharcado.

Decidi conferir as horas, com a esperança de que fosse amanhecer logo. O mostrador luminoso do relógio indicava 11h20. Seria uma noite muito, muito longa. Quando surgiram os primeiros sinais da aurora, eu me levantei, espremendo o máximo que podia da água da lona que servira de colchonete, e comecei a andar.

Na hora do almoço, o sol estava brilhando; decidi estender minhas roupas molhadas e a lona sobre os arbustos para secarem. Mas meu espírito continuava úmido. Eu estava ficando com falta de ar e com o corpo doído por causa do terreno encharcado. Meus pés estavam começando a fazer bolhas. Apesar de não querer admitir, estava me sentindo péssimo.

Mas resolvi insistir, atravessando o Massachusetts e chegando até o estado de Vermont. Minha força e confiança cresciam a cada dia. Estabeleci uma rotina, levantando com o sol, caminhando até a hora em que ele começava a baixar no céu, parando para nadar, cozinhando em uma pequena fogueira e dormindo com os sons noturnos da natureza.

O ritmo da solidão, antes tão intimidador, começou a parecer confortável. O isolamento, eu estava aprendendo, não precisa ser igual à solidão.

E depois de caminhar o máximo que me dispus a caminhar, ergui o dedão e comecei a andar de carona pela Nova Inglaterra, parando nas cidades pequenas e acabando por chegar a Boston.

Entre todas as pessoas que encontrei pelo caminho, apenas uma me pareceu assustadora. Um homem estranhamente silencioso que me deu carona e que, quando chegamos ao lugar em que eu iria descer, se ofereceu para desviar do seu caminho e me levar por mais 20 quilômetros se eu posasse para algumas fotos.

Diante da minha hesitação, ele garantiu que seriam apenas alguns instantâneos ao lado do carro. Por que não, eu disse a mim mesmo. Fui tão ingênuo que não me ocorreu questionar por que toda aquela vontade de tirar fotos de jovens estranhos. Mas esse cara foi a exceção.

Conheci uma jovem hippie que me deu carona em um micro ônibus VW (sim, os estereótipos existem) e dividiu comigo algumas cervejas e sanduíches. Conheci um grupo de formandos de Amherst que me ofereceram um espaguete no jantar e me deixaram dormir no chão da sala.

Conheci um guarda que, ao me ver com o dedão erguido em um trecho deserto da estrada, fez uma volta com o carro e me levou para um lugar mais movimentado. E conheci muitos moradores das cidades pequenas que me ofereciam algo para beber quando eu passava.

Apesar de todas as coisas ruins deste mundo, eu estava aprendendo uma verdade fundamental: que as pessoas são basicamente boas, gentis e generosas. Você não pode ser bobo, mas se der uma chance a elas, a grande maioria não irá trair sua confiança.

Naquele verão eu aprendi a apreciar a beleza da solidão e a bênção que é o companheirismo. Aprendi a me deleitar com a natureza e confiar em meus instintos. E, o mais importante, passei a acreditar na super dolorosa decência da raça humana. Nada mau para uma viagem de verão de um rapaz.

Vida

2 DE DEZEMBRO DE 2002

Livro : Cachorros encrenqueiros se divertem mais, John Grogan autor do best seller “Marley & Eu”, Ediouro,  2008

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