Pepe Mujica, um homem que desperta paixões por onde passa com seu jeito de bom velhinho, o avô da juventude e dos progressistas.

Já foi guerrilheiro do grupo Tupamaro, que reunia numa verdadeira “salada ideológica” marxistas, maoistas e anarquistas. Durante a ditadura militar, Mujica ficou 13 anos preso, sendo que 11 passou na solitária. No dia de sua soltura, plantou no seu penico mudas de flores.

Uma atitude que mostrou como pode-se dar não só um novo destino aos objetos como também à própria vida.

Ao retornar à vida política com a volta da democracia, Pepe Mujica se dedicou a elevar o padrão de vida dos mais pobres, porém com um novo olhar sobre a burguesia, decidiu ter uma boa relação com ela, pois isso seria bom para o país.

“Não quero mais esmagar a burguesia, como desejava antes. De jeito algum. Eu quero é ordenhar a burguesia!” E pelo visto a ordenha lhe rendeu bons frutos, pois durante seu governo conseguiu emplacar pautas progressistas nunca antes imagináveis num pequeno país católico da América Latina como a legalização do aborto, casamento gay e a produção de maconha.

O leitão assobiou

Quando lhe era perguntado se ele aspirava a presidência, Mujica respondia: “Presidente, eu? Hehehehehe… isso seria tão improvável como um leitão assobiando!”. E no dia 01/03/2010 o leitão assobiou.

Seu governo foi marcado por aprovar a lei de regulação da produção e comercialização da maconha, que atualmente é vendida em farmácias para consumidores registrados. O assunto tornou-se notícia mundial. Curiosamente a erva era consumida, mas não produzida, desde 1930. E nem a ditadura militar proibia o consumo!

Mujica, contudo, jamais fumou a erva e costumava dizer: “Se para ser livre preciso fumar ou beber uma droga, estou lascado. A liberdade está aqui, em minha cabeça. Se não está aqui em minha cabeça, não tenho liberdade”.

Outra medida polêmica: apoiou a legalização do aborto, que se comparada às leis dos EUA e Europa é bem limitada. Ela permite o aborto dentro das 12 primeiras semanas de gestação e exige que a mulher se encontre com uma banca de médicos e assistentes sociais para esclarecer os riscos e possíveis efeitos colaterais de um aborto.

O ideal de um mundo mais justo

Mujica tem um estilo de vida simples baseado no consumo consciente. Enquanto presidente, ele rejeitou os benefícios do cargo. Vive em uma casa de apenas um quarto na fazenda de sua esposa e dirige um fusca de 1978.

Seu modo de vida quase franciscano lhe rendeu o título de “presidente mais pobre do mundo”, que ele rejeitou com a seguinte frase: “Uma pessoa pobre não é aquela que tem pouco, mas aquela que precisa sempre de mais e mais e mais. Eu não vivo na pobreza, vivo com simplicidade. Necessito de poucas coisas para viver”.

Ambientalista de carteirinha, ele criticou o modelo de desenvolvimento defendido pelas sociedades ricas na Rio+20: “Nós podemos reciclar praticamente tudo hoje. Se vivêssemos dentro de nossas necessidades –ao ser prudente – as 7 bilhões de pessoas no mundo teriam tudo o que elas precisam. As políticas globais deveriam caminhar nessa direção”, disse ele.

Mujica também rejeitou um projeto conjunto com o Brasil que iria fornecer a seu país energia barata vinda do carvão, por conta de seus receios em relação a dano ambiental causado por este tipo de energia.

É um político focado na redistribuição de renda. Seu governo diminuiu a pobreza de 37% para 11%.

Em seu discurso na Câmara do Comércio dos EUA disse: “Não é mistério algum que menos pobreza, mais comércio. O investimento mais importante que podemos fazer está nos recursos humanos”.

As políticas de redistribuição de seu governo incluem estabelecer os preços em bens essenciais como leite, por exemplo, e o fornecimento de computadores e educação para todas as crianças, de graça.

Em 2016 participou em Curitiba do Seminário Democracia na América Latina e propôs uma mudança de mentalidade.

“Sem mudar a cultura muda nada . Como cultura entende-se a mentalidade de vida. Deixar o consumismo de lado, promovendo principalmente a vida e a felicidade humana como centro da sociedade.

E complementou: ” Vendem mentiras até que te tiram o último dinheiro. Essa é a nossa cultura e a única saída é a contracultura” .

Esta contracultura não está focada apenas na questão econômica, mas também na política, na democracia.

Diante do avanço a nível mundial de uma direita retrógrada, que representa os interesses do mercado, Mujica faz sérias críticas:

“A democracia do futuro não pode ser a democracia de gente sob medida, de campanhas e propaganda para satisfação do mercado. Aquela vende um candidato político como se fosse pasta de dente. Se a política é isso estamos fritos”

Ele é um político que tem como princípio, enxergar as derrotas como aprendizado, que levanta a cabeça e segue em frente.

Os anos de guerrilha o tornaram cético com relação às guerras. “Eu costumava pensar que haviam guerras nobres e justas, mas eu não acredito mais nisso. Hoje, acho que a única solução são negociações. A pior negociação é preferível à melhor guerra, e a única maneira de garantir a paz é cultivar a tolerância”.

Após seu mandato de presidente, Mujica foi eleito senador, mas renunciou tempos depois alegando cansaço. Mas o fato é que ele nunca se afastou da política, apenas do cargo.

As diversas andanças e palestras demonstram que ele está muito longe de se aposentar. E ele já anunciou que se candidatará ao senado novamente e o leitão pode assobiar novamente.

Fonte: Jornalistas Livres , Revista Fórum

Foto: Niicolas Arrayave

 

RECOMENDAMOS


COMENTÁRIOS




Revista Ecos da Paz
Viver em harmonia é possível quando abrimos o coração e a mente para empatia e o amor.