O que contarei hoje aconteceu há alguns anos, mas parece que foi há duas horas . O fato ocorreu na cidade do Rio de Janeiro no ônibus 350 ( Passeio – Irajá).

Durante o trajeto um casal hétero embarca no ônibus, ambos gritando um com o outro, a mulher pagou a passagem e logo em seguida tomou um soco nas costas de seu parceiro, ele pula a roleta e começa a agredi-la com mais socos e pontapés.

A indignação de todos dentro do ônibus foi tamanha que de espectadores da cena se tornaram agressores expulsando o homem, retribuindo na mesma moeda a agressão do “filho de um cabrunco”.

A mulher sentiu pena de seu agressor, interrompeu o linchamento e desceu do ônibus com ele. 

O acontecimento citado é algo ocorre todos os dias e todas as horas, nesse exato momento que escrevo esse texto alguma mulher está sofrendo alguma agressão.

Alguns podem dizer: “mas no mundo milhares de pessoas morrem a todo momento isso é vitimismo…tá ok?”

Você tem o direito de achar que tem razão, porém, não trata-se de “mimimi” e sim questionar a normalização da agressão ao sexo feminino e o feminicídio por parte de todos nós: homens e mulheres, que se omitem, que ainda são pautados pela máxima: “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher.”

A herança de Augusto, o primeiro Imperador romano. 

O direito romano serviu de base para toda uma realidade social europeia e teve importantes laços com nossa sociedade brasileira durante a colonização e  deixa rastros de destruição até os dias de hoje.

As reformas de Augusto (primeiro imperador romano) no ano I D.C foram o ponto de partida para a mudança social de uma república para um império.

Uma destas reformas foi a ‘Reforma moral” que promovia uma legislação sobre as relações matrimoniais e extramatrimoniais.

Existiam três Leis: Lei Júlia sobre adultério (Lex Iulia de adulteriis), Lei Júlia sobre ordens matrimoniais ( Lex Iulia de maritandis ordinibus) e Lei Papia-Popeia (Lex pappia popaea).

Hoje em dia essas leis são conhecidas como ” Leis matrimoniais de Augusto” e transferiram decisões da vida privada para a esfera pública e reconfigurou as funções, direitos e deveres do pater famílias( o patriarca).

Segundo Sarah Fernandes Lino de Azevedo em seu artigo “A ética da monogamia e o espírito do feminicídio: marxismo, patriarcado e adultério na Roma Antiga e no Brasil atual“.

Há um ranço em nosso direito penal nas práticas punitivas com relação ao adultério feminino visto que somente em 2005 foi extinta a redução de pena para aqueles que cometem feminicídio sob o pretexto da defesa da honra matrimonial abalada com o adultério cometido por parte da vítima. 

O reflexo desse tipo de comportamento pode ser visto nas produções literárias, filmes, propagandas, em especial, selecionei uma fala polêmica de Nelson Rodrigues para exemplificar tal normalização: ” Nem todas as mulheres gostam de apanhar. Só as normais. As neuróticas reagem.”

Nela percebe-se que agredir uma mulher é normal, quando elas reagem são loucas, neuróticas, desequilibradas. 

Lembro claramente de meu pai e seus amigos proferirem essa frase com  intenção cômica e também de minhas risadas a fim de aprovação no meio dos adultos. Outros tempos, mesmos valores. 

Uma outra referência é o primeiro conto do livro Cemitério de Elefantes intitulado “O primo”  de Dalton Trevisan, que mostra a transformação de um homem amoroso, resiliente em um homem amargurado e frio após descobrir que sua esposa não era mais virgem antes do casamento.

 

Após a noite de núpcias Santina (esposa) conta a Bento (marido) que foi estuprada por um primo chamado Euzébio antes de se conhecerem. 

O final do conto é surpreendente pois induz o leitor masculino a refletir sobre seus padrões e escancara a normalidade da agressão ao sexo feminino, ao mesmo tempo, expõe a cobrança que nós homens sofremos para seguir um modelo de heterossexualidade predatório e patriarcal.

Verifica-se que o autor caminha em direção oposta ao senso comum, o personagem vinga a sua honra matando o agressor e não a amada. Neste ponto, Dalton mostra um personagem a frente de seu tempo.

Apesar de Santina perceber o sentimento no olhar de Bento, ele acaba se rendendo à falsa moral social que se sobrepõe  ao amor  existente numa relação a dois.

Por Felipe Durán

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Revista Ecos da Paz
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