O ensino à distância não é nenhuma novidade. Nos Estados Unidos e na Alemanha, os pesquisadores em educação relatam que no final do século XIX era comum o envio de cursos por correspondência.

Aqui no Brasil, esta modalidade de ensino começou em 1941 com a criação do Instituto Universal Brasileiro, um dos maiores difusores de cursos profissionalizantes por correspondência.

Em 1996, com a Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional, o Brasil deu um grande salto na educação a distância, pois nesse período constituíram-se os primeiros cursos superiores já regulamentados pelo Ministério da Educação.

No ensino superior da rede particular há uma enorme oferta de cursos e instituições que usam este método, mas no ensino básico da rede pública a realidade é bem mais complexa.

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Atividade infantil com colagem. Foto: Divulgação

Os desafios com o ensino fundamental

A pandemia da Covid-19 impôs um grande desafio para os alunos,  educadores e para as famílias: como dar e assistir as aulas pela internet?

De acordo com a legislação, o  termo correto é: Regime Especial Domiciliar em que o professor usa uma plataforma de comunicação  em que toda a turma se conecta para assistir às aulas.

A princípio parece fácil, mas este método requer treinamento do corpo docente, disciplina e uma adaptação rápida ao novo formato de assistir aulas. 

De acordo com Claudio Oliveira, orientador educacional do Colégio Humboldt, da rede privada de ensino em São Paulo, a organização é essencial para que as prioridades possam ser estabelecidas. 

“É importante que as crianças possam aprender com tudo isso, pois é um desafio para todos. É preciso ter a calma, a serenidade e a seriedade que a situação exige para que se possa viver um dia de cada vez.”

Adriana Gallego, mãe de gêmeos, que estudam no Colégio Salesiano em Niterói no Rio de Janeiro destaca algumas dificuldades: a conexão com a plataforma Zoom cai e isso dificulta a aprendizagem e a criança se dispersa.

Um outro ponto destacado por ela é a dificuldade dos pais que saíam para trabalhar e viam os filhos apenas à noite, terem que se adaptar à nova rotina com os filhos o dia inteiro em casa e se dividirem entre família e home office.

Com relação ao trabalho do corpo docente da rede privada, passar do presencial para o digital acarretou mais trabalho, a exceção dos colégios que já dispunham de uma infraestrutura de ensino mais informatizada.

O preparo das aulas se tornou mais demorado porque tem que detalhar o passo a passo das atividades, preparar o powerpoint, pesquisar links de vídeos, enviar as atividades para imprimir.

Marcelo Milani, coordenador de tecnologias educacionais do Colégio Humbolt, destaca que o desafio é muito grande.

“Não transferimos a responsabilidade aos pais nessa tarefa. No entanto, a parceria com as famílias é muito importante, pois é necessário apoio dos pais para que os alunos cumpram os planos que estão sendo desenvolvidos pelas professoras, especialmente com as crianças que ainda estão desenvolvendo suas autonomias.”- afirma.

De acordo com Luiz Miguel Garcia, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) na fase dos anos iniciais no ensino fundamental, no ciclo de alfabetização, não se deve usar o EAD pois o aluno não está pronto para esse processo, além de outras questões como a exposição a telas.

Bruna Elias, coordenadora pedagógica do Colégio Brasil-Canadá relata que a EAD foi adotada para todos os alunos, mas as turmas de alfabetização também têm horários para encontros individuais com os professores. 

Como fica a rede pública?

Se na rede privada de ensino nem todos os colégios estão preparados para este momento, na rede pública o desafio é ainda maior.

Secretarias estaduais e municipais de educação se mobilizam na criação de aplicativos, procuram parcerias com plataformas de internet.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a Secretaria Estadual de Educação usará o Google classroom com a criação de salas de aulas virtuais. Há também a transmissão das aulas pela televisão.

Grande parte da rede pública de ensino (estado e município) já tinham páginas das escolas no facebook, antes mesmo da pandemia. E elas têm sido muito usadas para os alunos receberem o conteúdo das aulas.

Os professores enviam o material para a coordenação da escola, que posta na página.

Segundo a secretaria, os professores vão ministrar as atividades na plataforma em seus horários de trabalho, respeitando o quadro de aulas presenciais. 

Mesmo nos grandes centros urbanos existem famílias sem acesso à internet, para estes casos, há a distribuição de material impresso e de chips de internet.

De acordo com a pesquisa nacional por amostra de domicílio do IBEG, o PNAD, no Rio de Janeiro, 65% da população do estado tem acesso à internet. O distrito Federal tem 78% e o menor índice é o Pará com 29%.

No estado de Goiás, desde, os a o final de março, os alunos têm assistido aula por plataforma digital, atividades televisionadas, além da distribuição de material impresso numa parceria com os conselhos tutelares e a Polícia Militar.

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Mesmo nos grandes cidades existem bolsões sem acesso à internet. Foto: Divulgação

Aumento da desigualdade

Mais de um mês após o fechamento das escolas em todo o país por causa da pandemia de Covid-19, muitos questionamentos começaram a surgir quanto a eficácia do ensino à distância na substituição das aulas presenciais.

O ponto é: o aprofundamento das desigualdades no aprendizado.  

Este abismo fez com que muitas ações aparecessem no Ministério Público e também projetos de lei para impedir que o ensino remoto na educação básica seja contabilizado como parte das horas letivas obrigatórias estipuladas pelo Ministério da Educação.

O Conselho Nacional de Educação recomendou que as aulas remotas sejam contadas na carga horária. Desta forma, os conselhos estaduais e municipais, que regulam a rede pública e privada de ensino, possam permitir esta prática.

No começo do mês de abril, o Ministério Público recomendou ao conselho de educação goiano a suspensão das atividades obrigatórias, mas o órgão não atendeu apresentando razões que não convenceram a promotora Maria Bernadete Ramos.

“Pais e professores reclamaram. Eu fiz a recomendação para revogar a decisão a partir do momento que não atendia à coletividade e ainda aumentava a desigualdade entre a rede privada e pública. Parte dos alunos não tem internet”- afirmou a promotora.

Os sindicatos que representam os  trabalhadores da educação pública no Paraná , São Paulo, Pernambuco e Ceará também entraram com uma ação no Ministério público.

De acordo com Mary Guinn Delaney, assessora regional da Unesco em educação, além da falta de estrutura e de treinamento na rede pública de ensino, há a desigualdades de gêneros, porque as meninas também têm de se ocupar com as tarefas domésticas.

Neste desafio, a educação mostra o tamanho de sua importância seja na relação olho no olho do professor com os estudantes, na troca lúdica entre os colegas e também na percepção das famílias sobre o trabalho de um profissional que há décadas vem sendo desacreditado.

Fonte: Folha de São Paulo, Sindicato do Professores, Agência Brasil

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