Carlos Drummond de Andrade escreveu em uma de suas crônicas: “Adélia é lírica, é bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus.”

Adélia Prado é o cotidiano explorado com simplicidade. Uma rotina onde a religiosidade é abordada sem moralismo e traz um toque de erotismo, de Eros, o Deus do Amor, a força vital. A fé, o contato com Deus é como as relações humanas, acontece naturalmente.

O sobrenatural, o metafísico ganha imagens da vida comum. Em suas entrevistas diz que  abraça a fé na vida eterna, acredita que estamos aqui para uma provação e usa a poesia como instrumento para atravessar este período.

“Os artistas são chamados de criadores, mas isso é força de expressão, porque o criador por excelência não sou eu. Eu não crio a poesia. Eu sou o instrumento para que ela aconteça.” – Adélia Prado

SESTA
O poeta tem um chapéu,

um cinto de couro,

uma camisa de malha.

O poeta é um homem comum.

Mas, quando diz:

a tarde não podia tanger

com “os bandolins e suas doces nádegas”,

eu me prostro invocando:

me explica, ó decifrador, o mistério da vida,

me ama, homem incomum.

No oeste de Minas tem um canavial,

onde as folhas se roçam ásperas,

ásperas as folhas da cana-doce roçam-se.

Como agulhas bicando em vidro liso,

o pio das andorinhas dentro da igreja deserta.

Os trinados e as folhas cortam,

entre as canas é doce, doce e fresco,

entre os bancos da igreja.

Repouso lá e cá,

um poder em círculos me dilata,

eu danço na mão de Deus.

Na hora do encantamento,

o reverso do verso dá sua luz:

“os bandolins e suas doces nádegas”,

um mistério santíssimo e inteligível.

ENTREVISTA

Um homem do mundo me perguntou:

o que você pensa de sexo?

Uma das maravilhas da criação, eu respondi.

Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas

e esperava que eu dissesse maldição,

só porque antes lhe confiara: o destino do homem

[é a santidade.

A mulher que me perguntou cheia de ódio:

você raspa lá? perguntou sorrindo,

achando que assim melhor me assassinava.

Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,

peludo ou não.

Santo, santo, santo é o amor, porque vem de Deus,

não porque uso luva ou navalha.

Que pode contra ele o excremento?

Mesmo a rosa, que pode a seu favor?

Se “cobre a multidão dos pecados e é benigno,

como a morte duro, como o inferno tenaz”,

descansa em teu amor, que bem estás.

FRATERNIDADE

Um dia

um padre que fazia milagres

deu sua bênção pro povo:

mulheres de cabacinha de ouro na orelha,

homens de camisa cor-de-rosa,

menino de todo jeito e de terninho.

Galho de funcho, arruda, manjericão,

cheiravam junto com o povo apertado no pátio.

Tudo ótico, olfático, escatológico.

A paciência de Deus sentou de pernas cruzadas

na platibanda da igreja. Com uma mão pitava,

com a outra segurava o joelho,

piscando um código pra Murilo Mendes

que rolava de rir.

A CARNE SIMPLES

Na cama larga e fresca

um apetite de desespero no meu corpo.

Uivo entre duas mós.

Uivo o quê?

A mão de Deus que me mói e me larga na treva.

Na boca de barro, barro.

Quando era jovem

pedia cruz e ladrões pra guarnecer meus flancos.

Deus era fora de mim.

Hoje peço ao homem deitado do meu lado:

me deixa encostar em você

pra ver se eu durmo.

GREGORIANO

O que há de mais sensual?

Os monges no cantochão.

Espalmo como só pode fazê-lo

uma flor toda aberta,

desperta a espumilha-rosa

contra o melancólico e o cinza.

“Um dia veremos a Deus com nossa carne.”

Nem é o espírito quem sabe,

é o corpo mesmo,

o ouvido,

o canal lacrimal,

o peito aprendendo:

respirar é difícil.

O PODER DA ORAÇÃO

Em certas manhãs desrezo:

a vida humana é muito miserável.

Um pequeno desencaixe nos ossinhos

faz minha espinha doer.

Sinto necessidade de bradar a Deus.

Ele está escondido, mas responde curto:

‘brim coringa não encolhe’.

E eu entendo comprido

o comovente esforço da humanidade

que faz roupa nova para ir na festa,

o prato esmaltado onde ela ama comer,

um prato fundo verde imenso mar cheio de estórias.

A vida humana é muito miserável.

‘Brim coringa não encolhe’?

Meu coração também não.

Quando em certas manhãs desrezo

é por esquecimento,

só por desatenção.

FESTA DO CORPO DE DEUS

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“O crux ave, spes unica

O passiones tempore.”

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,

suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

É próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos

os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.
Eu te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta árvore de execração

o que dizes é amor,

amor do corpo, amor.

Adélia Prado, do livro “Poesia Reunida“, Editora Record, Rio de Janeiro, 2015

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Revista Ecos da Paz
Viver em harmonia é possível quando abrimos o coração e a mente para empatia e o amor.