Foi-se o tempo em que a meditação era percebida como coisa de “bicho grilo”, “coisa de hippie”. Esta prática milenar tem sido alvo de vários estudos científicos e a lista de resultados positivos em relação à nossa saúde física e mental é grande.

A melhora da concentração, diminuição dos níveis de stress e de ansiedade e até mudanças estruturais e funcionais no cérebro de quem pratica são alguns dos motivos para que a meditação seja usada em escolas, com moradores de rua e até nas penitenciárias.

Aqui no Brasil, o Complexo Penitenciário Público Privado em Ribeirão das Neves em Minas Gerais proporcionou aos seus internos uma espécie de liberdade diferente: o projeto Vipassana na prisão.

Um novo caminho

Uma área da prisão foi transformada para receber voluntários que durante 10 dias ficaram em silêncio quase absoluto concentrados em técnicas de relaxamento, de respiração e meditações guiadas.

Os internos trocaram seus uniformes por roupas brancas e até a dieta foi alterada, sem consumo de carnes.

O projeto foi realizado em abril de 2018 pela instituição Vipassana Brasil em parceria com a administração do presídio. Foi a 1ª vez que um grupo de detentos brasileiros abandona a sua rotina para vivenciar a prática de exercícios meditativos em completo silêncio.

Rodrigo Gaiga, diretor-presidente da Gestores Prisionais Associados (GPA), que administra o complexo havia participado do curso de meditação em 2017 a convite de um amigo, percebeu que ele poderia ser uma ferramenta importante no processo de ressocialização e convivência dos presos.

“Na administração do complexo, nós pensamos em 3 pilares ao enxergar o preso como indivíduo: O empreendedorismo, como forma de trabalho; a criação de vínculos e importância da família para tolerar o dia a dia; e a importância de cuidar da saúde. A meditação tem benefícios que são inegáveis e que se encaixam com os nossos pilares. Foi uma oportunidade deles pensarem em suas atitudes e no que querem ao terminar a pena“, explica o gestor.

A dura rotina zen

A disciplina rígida define o curso, que é ministrado também em penitenciárias dos EUA e Índia.

O dia começava às 4 horas da manhã e eles se preparavam para a 1ª meditação das 4:30h até às 6:30h. Depois, um café da manhã era servido e o grupo era liberado para um descanso até as 8h.

Em seguida, das 8h as 9h acontecia mais um período de meditação, o grupo faz um intervalo rápido de 5 minutos e em seguida acontece mais meditação até as 11h.

Finalizado o período da manhã, é servido o almoço até as 13h e um descanso. No turno da tarde, o período de meditação acontece das 13h ate às 14:30h.

Mais um descanso e outro turno de meditação até as 15:30h seguida de outra sessão de meditação até às 17h. É servido, então, um café da tarde até as 18h e mais um turno de meditação para fechar o dia.

No fim das sessões, acontecia uma palestra diária sobre a experiência. Antes de dormir, era sugerida mais uma sessão de meditação. O expediente dos presos terminava por volta das 21:30. No dia seguinte, às 4h da manhã todos estão de pé para cumprir a mesma agenda. E todos no mais completo silêncio.

Os obstáculos

Houve uma pré-seleção dos alunos na penitenciária com base no perfil de cada um deles. A maioria já desenvolvia outras atividades dentro do presídio. Dos 25 selecionados, apenas 4 presos desistiram do curso.

Os presos nunca tiveram uma experiência prévia com a meditação e isso tornou o desafio ainda maior.

Para Edgard Teixeira, um dos presidiários que completou o curso, a meditação provocou até mesmo dores físicas nos dias iniciais.

“Foi um sofrimento. Senti muita dor física e desconforto. Depois começamos a entender o propósito da meditação e tivemos que enfrentar os problemas de frente e ver que com tranquilidade e muita concentração, foco, a gente encontra a solução“, explicou.

Para Gaiga, o curso foi uma quebra de paradigma. O projeto-piloto está sendo negociado com o Estado para que possa se tornar um trabalho ininterrupto.

“É uma população que não tinha conhecimento daquilo e foi uma aderência totalmente espontânea. Quando eles fizeram o curso, eles abriram mão de dedicar o tempo deles para outras atividades, inclusive atividades que tem remissão de pena. É como se você tivesse soltado uma bomba atômica do bem.”

Fonte: Huffpost

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