” Desde 519 anos nós estamos resistindo. Mesmo que tirem nossa raíz, ela tá lá grudada e ela tá crescendo e tá crescendo e tá dando frutos e as flores vão se espalhar, porque nós estamos aqui pra lutar.”

Esta foi a fala de Alessandra Korap, líder da etnia munduruku, da cidade de Itaituba, no Pará. Seu discurso indignado, acompanhado de muitas batidas na mesa, deixou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia e os outros membros da reunião sem ação e perturbados diante da fúria de uma mulher que não mede esforços para defender seu povo e seu território. Nesta reunião que aconteceu em abril deste ano também estavam presentes outras 15 lideranças indígenas.

Além de Alessandra, outras mulheres de diferentes etnias estão despontando o cenário político e social como: Sônia Guajajara, Valdelice Verón, Hushashu Yawanawá, Daiara Tukano, Renata Tupinambá e Célia Xakriabá. Todas têm facebook e a maioria tem curso superior, de acordo com o censo da Educação Superior de 2017, 56,7 mil indígenas estão matriculados na universidade e 57% são mulheres.

Para a líder munduruku, ela vê as mulheres como guerreiras e não como feministas porque estão sempre acompanhando os caciques e os guerreiros. Precisam estar ao lado dos homens ajudando a decidir o destino do seu povo.

Apesar da participação ativa na aldeia, ela diz que a dificuldade para a mulher indígena ocupar os espaços são muitas. Começa desde o momento que a mulher sai da aldeia deixando a casa e os filhos para participar de eventos em outros lugares, inclusive no exterior. Muitas vezes, a casa fica desabastecida porque é a mulher que pesca e vai para a roça.

Dia Internacional dos Povos Indígenas

A data foi instituída pela UNESCO em 23/12/1994 e é comemorado dia 9 de agosto. O principal propósito desta data é conscientizar sobre a inclusão dos povos indígenas na sociedade, alertando sobre seus direitos, pois muitas vezes são marginalizados ou excluídos da cidadania. A outra finalidade é garantir a preservação da cultura tradicional de cada um dos povos indígenas, como fonte primordial de sua identidade.

Em 2019 o tema foi “Línguas Indígenas” que chama a atenção para a capacidade das mulheres indígenas poder se expressar em seu idioma que é fundamental para assegurar sua contribuição à vida pública, já que elas são cidadãs, políticas, defensoras de direitos humanos ou líderes comunitárias.

A ONU Mulheres diz que o obstáculo linguístico nunca deveria ser utilizado como motivo para rejeitar as mulheres indígenas em um centro de saúde ou para negar-lhes o acesso a serviços vitais, como a atenção da saúde reprodutiva. Assim como o acesso à justiça formal e das instituições de justiça indígena, pois a acessibilidade significa o respeito a seu direito à interpretação e a falar na língua que lhe é familiar.

Os sistemas educacionais, da primeira infância ao ensino fundamental, médio, superior, formação profissional e aprendizagem de pessoas adultas, devem respeitar as necessidades linguísticas das mulheres e meninas indígenas e, tal quanto for possível, devem promover a educação bilíngue.

Os idiomas não são somente um meio de comunicação, mas parte essencial de história, arte, tradições orais, literaturas e visões de mundo das comunidades indígenas. Como guardiãs das suas distintas culturas, as mulheres indígenas desempenham papel vital na transmissão de suas línguas às gerações futuras, preservando a identidade, a diversidade e a coesão social.

No entanto, as línguas indígenas, assim como os meios de vida, as culturas, os territórios ancestrais e os recursos naturais desses povos, seguem ameaçados pela exploração desmedida dos recursos naturais que pressupõem desapropriação e deslocamento. Hoje, das cerca de 7 mil línguas faladas no mundo, estima-se que a maioria (96%) seja falada por apenas 3% da população mundial, incluindo um número significativo de indígenas.

Mulheres em marcha

2019 é o ano marcado por um levante de guerreiras indígenas. Mulheres de mais de 80 povos se reuniram na capital do país para participar da primeira Marcha das Mulheres Indígenas, que tem como lema “Território: nosso corpo, nosso espírito”.

Dentre as guerreiras estava Brasilice Tembé, de 78 anos, que viajou 24 horas com uma comitiva do Maranhão. Ela pede mais ações do governo para o combate ao desmatamento e à mineração ilegal.

Outra demanda das mulheres indígenas é a regularização das terras e o combate à violência. Elas se posicionam contra a municipalização e a privatização do atendimento à saúde.

Maura Arapiun, uma das coordenadoras da Marcha das Mulheres, defende que os povos indígenas sejam ouvidos antes de qualquer alteração no modelo de assistência.

Fonte: EBC, ONU

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