Português é uma língua maliciosa, que pega pelo pé os mais desatentos, que dá um nó na cabeça de quem está aprendendo, em especial na dos estrangeiros.

Um idioma que encanta pela vastidão do seu vocabulário e ainda esbanja excentricidade com a palavra “saudade”, que só existe na língua portuguesa.

No dia a dia até usamos a norma culta, mas as regras gramaticais estão no piloto automático, ninguém explica porque na palavra “casa” o “s” tem som de “z”, ou por que a palavra “lápis” não tem plural.

Na crônica a seguir, Luís Fernando Veríssimo nos diverte com um pai tentando explicar para o filho que a palavra “sexo” não tem feminino através de um bem-humorada jogo de palavras. 

De Olho na Linguagem

– Sexa

– Hmmm?

 – Como é o feminino de sexo?

 – O quê?

 – O feminino de sexo.

 – Não tem. 

– Sexo não tem feminino?

 – Não.

 – Só tem sexo masculino? 

– É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.

 – E como é o feminino de sexo?

 – Não tem feminino. Sexo é sempre masculino. 

– Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino e feminino.

 – O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra “sexo” e masculina. O sexo masculino, o sexo feminino

 – Não devia ser “a sexa”? 

– Não. 

– Por que não?

 – Porque não! Desculpe. Porque não. “Sexo” é sempre masculino.

 – O sexo da mulher é masculino?

 – É. Não! O sexo da mulher é feminino.

 – E como é o feminino? 

– Sexo mesmo. Igual ao do homem. 

– O sexo da mulher é igual ao do homem?

 – É. Quer dizer… Olha aqui. Tem o sexo masculino e o sexo feminino, certo? 

– Certo. 

– São duas coisas diferentes. 

– Então como é o feminino de sexo?

 – É igual ao masculino.

 – Mas não são diferentes? – Não. Ou, são! Mas a palavra é a mesma. Muda o sexo, mas não muda a palavra. 

– Mas então não muda o sexo. É sempre masculino.

 – A palavra é masculina.

 – Não. “A palavra’ é feminino. Se fosse masculina seria “o pal…” 

– Chega! Vai brincar, vai. O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta: – Temos que ficar de olho nesse guri…

 – Por quê? 

– Ele só pensa em gramática.

Luís Fernando Veríssimo, crônica “De olho na gramática”, do livro “Comédias para se ler na Escola”. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2014

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