Em 1986 foi realizada na cidade de Ottawa no Canadá a Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, cujo objetivo era discutir uma nova saúde pública. Estas discussões geraram a Carta de Otawa que apresenta como recursos fundamentais para a saúde a paz, habitação, educação, alimentação, renda, ecossistema estável, recursos sustentáveis, justiça social e equidade.

Uma visão de medicina integrativa em que ter saúde não é apenas ausência de doença, mas uma condição decorrente do bem-estar físico, psicológico, familiar, social e espiritual, um olhar sobre os pacientes de maneira integral, holística.

Ao final da década de 90 a OMS (Organização Mundial da Saúde) propôs que a dimensão espiritual das pessoas entrasse no conceito de saúde. É provado cientificamente que as emoções e o estado espiritual afetam o nosso corpo, são as doenças da alma. Apesar do assunto ser controverso, a medicina resolveu abraçar esta causa e colocou a espiritualidade como disciplina optativa. Enquanto que nos Estados Unidos cerca de 80% das faculdades têm esta disciplina no currículo, aqui no Brasil estamos indo devagar. A disciplina existe na UFF (UniversidadeFederal Fluminense) , UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e UFBA (Universidade Federal da Bahia).
De acordo com pesquisadores da Universidade Federal de Juíz de Fora cerca de 72% dos estudantes de medicina acreditam que a espiritualidade tem impacto na saúde do paciente.

Perdoar é divino

A psiquiatra Carmita Abdo diz que o ponto de vista da disciplina é comprovado cientificamente: “As emoções levam a modificações de substâncias no organismo. Quando liberamos ocitocina e endorfina, melhora a imunidade e a sensação de bem-estar. O contrário ocorre com sensações negativas, que liberam substâncias que baixam a imunidade. Com o perdão não é diferente. Quando perdoamos alguém temos a sensação de alívio, de gratificação, o que é revertido em ocitocina”, diz.

O perdão e a consciência estão conquistando alguns espaços dentro da academia, que analisa os benefícios à saúde alcançados por quem cultiva bons sentimentos e deixa para trás rancor, mágoa e raiva. Uma prova dessa mudança é a disciplina optativa Medicina e Espiritualidade, que caminha para o quarto semestre na faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense.

José Genilson Ribeiro, urologista, foi o responsável pela implementação da disciplina em 2017. Ele afirma que nas aulas os sentimentos são trabalhados, pois acredita que a doença começa na alma, se instala no corpo físico, e que é preciso tratar o paciente de maneira integral. Não basta tratar o efeito da doença, mas os todos os aspectos. Muitas pessoas têm mágoas e não conseguem perdoar. Isso as deixa presas em suas dores, o que dificulta a melhora física.

Medicina e espiritualidade é uma disciplina que vai além da sala de aula. Dentro da UFF existe o Núcleo de Estudos em Saúde, Medicina e Espiritualidade (Nesme) em que um grupo de profissionais das áreas de psicologia, medicina e arteterapia atendem os pacientes gratuitamente.

Em 2014 a UERJ criou a Liame (Liga Acadêmica de Medicina e Espiritualidade), um setor para “cuidar de quem cuida”, um grupo de apoio que recebe alunos de Medicina para que eles também expressem suas emoções e tenham melhores condições de lidar com elas. Segundo Carlos Roberto Figueiredo, estudante da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj e fundador da Liame, esta Liga foi criada com base no aumento do interesse acadêmico.

Relação médico-paciente e a espiritualidade

Rubens Tavares,coordenador do Núcleo Avançado de Saúde, Ciência e Espiritualidade da UFMG (Nasce) e professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina, diz que os estudantes são preparados para fazer a abordagem espiritual do paciente e identificar nessas pessoas a importância da espiritualidade e da religiosidade no processo de cura. Para ele, o lado espiritual de cada pessoa exerce poder em seu tratamento. “Não queremos substituir a medicina tradicional, mas complementar de alguma forma o conhecimento. Não importa qual é a fé da pessoa. Se ela tem alguma religiosidade já mostra abertura para tratamentos que estão na linha da espiritualidade”- afirma.

Para ele é fundamental respeitar a crença do paciente. “Não estamos aqui para julgar a religião ou religiosidade do indivíduo, mas para tentar entender como a espiritualidade é capaz de influenciar sua conduta. Trazer isso pra o debate já é importante. Não vamos desafiar, brigar, tentar convencer a pessoa de fazer uma coisa que, para ela, vai ser maléfica. Vamos debater as possibilidades com o paciente até chegar a uma decisão mais consciente. Essa é a importância de colocar essa discussão dentro de uma escola médica”.
Certamente essa é uma matéria muito importante para a formação de médicos mais conectados aos seus pacientes, capazes de promover não apenas uma cura física, mas também auxiliá-los na cura espiritual.

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