Pernambucano de Recife, nascido em 19 de abril de 1886, Manuel Bandeira chegou com os pais no Rio de Janeiro ainda criança. Cursou o nível secundário no Externato do Ginásio Nacional, hoje conhecido como Colégio Pedro II e se graduou em letras em 1902.

No ano seguinte, ele se matriculou na Escola Politécnica de São Paulo para fazer o curso de engenheiro-arquiteto, mas largou os estudos por causa da tuberculose, que na época, a doença era quase uma condenação.

Ele frequentou diversas estações de cura em Minas Gerais, região serrana do Rio de Janeiro, e por fim Clavadel na Suíça, onde ficou de junho de 1913 a outubro de 1914. Ali teve como companheiro de sanatório o poeta Paul Éluard.

A doença acabou sendo a força motriz da sua produção literária. Escreveu de maneira simples sobre o cotidiano, a melancolia e a angústia e até mesmo sobre sua doença como no clássico “Pneumotórax”.

Em 1917 publicou “A cinza das horas” com poemas escritos durante a convalescênça da tuberculose.

O seu segundo livro intitulado “Carnaval” se caracteriza por uma liberdade de composição rítmica, que teve como destaque o poema “Os sapos”.

Estes versos, que segundo o próprio Bandeira não passavam de pastiches parnasianos, foram declamados por Ronald de Carvalho na Semana de Arte Moderna de 1922 e vaiados absurdamente.

O poema lhe rendeu o apelido de “São João Batista do Modernismo” dado por Mário de Andrade.

Apesar de apoiar o movimento Modernista, Manuel Bandeira não participou da Semana de 22. Ele não concordava com as críticas implacáveis contra os parnasianistas.

Ele nunca quis ser parte de movimento nenhum; queria apenas poder traduzir o seu mundo de um modo que, em seus próprios versos, fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais.

Seu estilo de escrever era uma constante busca pela simplicidade e isto o colocou ao lado de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto como um dos maiores poetas brasileiros pós-1940.

Para poder se sustentar, Bandeira trabalhou como professor de literatura, tradutor e como crítico literário.

Escreveu biografias, sobre sua cidade natal, o Recife, além de uma série de contos publicados em antologias de prosa. Essa parte de sua obra é menos conhecida do que seus poemas.

Bandeira era um observador engraçado, curioso, e que procurou retratar em contos e crônicas o Brasil de sua época, e que permanece para além da morte do escritor.

Em 2009, Bandeira foi o homenageado da sétima edição da FLIP ( Festa Literária de Paraty) e aqui vai uma coletânea de 5 poemas para você curtir.

Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Livro: “Libertinagem” ( 1930 )

Os Sapos

Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:

– “Meu pai foi à guerra!”

– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”

O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: – “Meu cancioneiro

É bem martelado.

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos.

O meu verso é bom

Frumento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A fôrmas a forma.”

Clame a saparia

Em críticas céticas:

“Não há mais poesia,

Mas há artes poéticas…”

Urra o sapo-boi:

– “Meu pai foi rei” – “Foi!”

– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”

Brada em um assomo

O sapo-tanoeiro:

– “A grande arte é como

Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.

Tudo quanto é belo,

Tudo quando é vário,

Canta no martelo.”

Outros, sapos-pipas

(Um mal em si cabe),

Falam pelas tripas:

– “Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”

Longe dessa grita,

Lá onde mais densa

A noite infinita

Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,

Sem glória, sem fé,

No porão profundo

E solitário, é

Que soluças tu,

Transido de frio,

Sapo-cururu

Da beira do rio…

Livro: ” O ritmo dissoluto” ( 1924 )

Noturno do Morro do Encanto

Este fundo de hotel é um fim de mundo!
Aqui é o silêncio que tem voz. O encanto
Que deu nome a este morro, põe no fundo
De cada coisa o seu cativo canto.

Ouço o tempo, segundo por segundo,
Urdir a lenta eternidade, enquanto
Fátima ao pó de estrelas sitibundo
Lança a misericórdia de seu manto.

Teu nome é uma lembrança tão antiga,
Que nem tem som nem cor, e eu, miserando,
Não sei mais como o ouvir, nem como o diga.

Falta a morte chegar… Ela me espia
Neste instante talvez, mal suspeitando
Que já morri quando o que eu fui morria.

Poética

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente

protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o

cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de cossenos secretário dos amantes exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

(Libertinagem, 1930)

Vou-me embora pra Pasárgada

Assista ao trecho do documentário “O Poeta do Castelo” de 1959, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Nele, o próprio Manuel Bandeira declama seu poema mais famoso.

 

Fonte: Academia Brasileira de Letras, Folha de São Paulo

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